publicado originalmente em 27/06/2021 no Seminário Ideias de Esquerda

fotografias Rafael Stedile

Essa frase estampava um dos milhares cartazes presente nos protestos que marcaram as chamadas jornadas de junho de 2013. Um processo da luta de classes que mudou o país, abriu uma nova etapa e 8 anos depois ainda é motivo de debate e polêmica na esquerda, sobre a sua caracterização, seus desdobramentos e significados. Refletir o balanço e perspectivas desse momento histórico, na atual situação reacionária no Brasil da pandemia e de Bolsonaro, é uma condição determinante para retirar lições dos avanços e limites dessa revolta popular. Em particular, o papel do PT e da burocracia sindical em não permitir que a classe operária pudesse ser protagonista, e assim, hegemonizar os milhares de gritos que atravessaram as ruas de todas as principais capitais e cidades do Brasil.

[02/06/2013] Nessa data é anunciado em São Paulo, pelo até então prefeito Fernando Haddad (PT) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o aumento de 20 centavos das passagens de ônibus, metrô e trem do transporte público. Uma política convencionalmente adotada, não somente em São Paulo, mas também por outros prefeitos e governadores do Brasil, para contentar os lucros dos empresários do transporte e dar prosseguimento a agenda de privatizações como meio de favorecer setores estratégicos da burguesia, cujo esses governos municipais e estaduais são comprometidos.

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Jornadas de Junho. 2013. São Paulo, SP – Rafael Stedile

Essas iniciativas não eram grande novidade, e nunca ao longo dos anos, apesar de sempre terem êxito, eram encaradas de maneira pacífica, principalmente entre a juventude, um dos setores mais atingidos por essa política. O MPL (Movimento Passe Livre), tradicionalmente convocava protestos para responder a esses ataques, acompanhado também pelas organizações da esquerda, que faziam em sua grande parte, oposição ao governo federal petista, comandado naquele momento por Dilma Roussef, no final do seu primeiro mandato.

A história da radicalidade das lutas pelo transporte público no Brasil

Os conflitos relacionados ao alto custo e a péssima qualidade do transporte público, historicamente ocorriam no cenário político nacional desde o final do século XIX. Em 1879, na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, uma das primeiras lutas registradas foi a chamada a “Revolta do Vintém”. Naquele momento, capital do Brasil imperial, a cidade carioca foi palco de uma manifestação popular de milhares de pessoas que se aglomeraram em frente a sede do palácio imperial em São Cristovão para exigir a redução da taxa de vinte réis cobradas no transporte público feito sob tração animal e que servia para deslocamento da população na região. A revolta popular gritava nas ruas o “fora vintém” e possuíam caráter violento espontâneo da população, que abatia animais que transportavam os bondes e atacavam também condutores. Enfrentou-se por dias com a repressão policial do império, que ateou balas de fogo aos manifestantes, deixando mortos e feridos. O movimento foi desarticulado, porém vitorioso, diante todo o escândalo as autoridades ligadas a companhia de bondes foram obrigadas a anular o reajuste do transporte, e o conflito marcou uma etapa de mudanças políticas, sociais e econômicas no país.

Mais de um século se passou, e já num outro milênio, a partir de 2005, novos conflitos massivos e com ações radicalizadas foram protagonizados pela juventude que tomaram as ruas de Salvador e Florianópolis, enfrentando-se até mesmo com a política de contenção da UNE. No mesmo ano é realizado em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial, um dos mais significativos já realizados e que contou com a presença de lideranças políticas como Lula, então presidente do Brasil e Hugo Chávez da Venezuela. Durante o evento, a temática da questão estratégica do transporte foi abordada com centralidade no fórum, dando início para a construção nacional do MPL.

Por conta de uma concepção teórica autonomista e uma prática política estritamente reformista, os protestos convocados pelo MPL apesar de ser atrativo para parcelas principalmente vinculadas a juventude secundarista e universitária, sempre tiveram o limite de não aproximar a classe trabalhadora. A principal bandeira do movimento era um PL (projeto de Lei) da “Tarifa Zero”, que remetia aos tempos da gestão municipal de Luiza Erundina, que estabelece a passagem gratuita, entretanto em base a uma relação harmoniosa com o capital privado dos transportes, através do pagamento de subsídios públicos a empresas privadas. A ausência da classe operária como sujeito social estratégico para a ruptura com capitalismo e resolver questões populares democráticas como a do transporte público, sempre foi uma debilidade estratégica importante do movimento, desde a sua origem.

A repressão policial e a massificação de “Junho de 2013”

Voltando ao ano de 2013, os primeiros protestos já ocorriam em diversas localidades no Brasil. Em Porto Alegre, Goiânia e Natal, apesar de manifestações pouco expressivas, o movimento já havia obtido vitórias parciais significativas na justiça, revogando temporariamente o aumento nessas cidades. Entretanto, é em São Paulo que os protestos passam assumir um outro caráter. Os primeiros atos aglutinaram de 5 a 15 mil pessoas nas ruas, teve como habitual resposta a repressão da polícia militar, só que nada comparado ao que aconteceu na noite de 13/06/2013, onde tropas da polícia militar da Força Tática e da Rota foram descoladas até a região central da cidade sob o comando e ordens do governador Alckmin.

A mídia televisiva cobria a manifestação, e não demorou muito para as imagens da brutal violência policial tomar conta das redes sociais. Mais de 180 pessoas entre manifestantes e profissionais da imprensa foram detidas e levadas a delegacia. Entre eles, o repórter da revista Carta Capital Piero Locatelli. A repressão e agressões aos manifestantes e a jornalistas eram escancaradas. Giuliana Vallone da TV Folha foi atingida por uma bala de borracha disparada pela Rota no seu olho, e só não perdeu a visão, pois usava óculos na ocasião. O repórter Fábio Braga, também da Folha de SP foi atingido por disparos em seu rosto, dois repórteres do Estado de SP foram agredidos de forma truculenta, assim como centenas de manifestantes. As imagens da cavalaria da polícia Militar na Avenida Paulista eram estarrecedoras.

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A repressão comandada pelo tucano Alckmin foi apoiada pelo PT. Imediatamente, após as repercussões, declarações como a do então Ministro da Justiça Eduardo Cardozo, transferindo a responsabilidade da violência policial para os manifestantes, já reverberavam pelos porta vozes petistas. “Eu pedi para a Polícia Federal acompanhar. Eventuais crimes e atos ilícitos que ocorram, em princípio, são da órbita da polícia estadual para apurar, para investigar. O governo federal está à disposição do governo paulista e de qualquer outro estado em que isso aconteça para apoiar naquilo que for solicitado”, disse Cardozo.

Haddad e Alckmin, que no dia anterior ao protesto haviam rejeitado a proposta do Ministério Público Estadual de negociação com o movimento, reiterando que manteriam o aumento, pronunciaram-se após a brutal repressão dos protestos de maneira muito semelhante, para não dizer praticamente iguais. “São Paulo está acostumada às manifestações. O que a cidade não aceita é a forma violenta de se manifestar e se expressar.”, declarou o prefeito. Enquanto, o governador em seu Twitter também condenava as manifestações: “O governo de São Paulo não vai tolerar vandalismo. O direito à livre manifestação é um princípio basilar da democracia. Assim como o direito de ir e vir e a preservação do patrimônio público.”

A tentativa tanto do PSDB como do PT em primeiro momento foi descaracterizar politicamente as manifestações, criminalizando como vandalismo as ações do protesto, minimizando a repressão policial e a colocando como a manutenção da ordem e do direito de ir e vir do Estado Democrático de Direito. Ou seja, a velha prática da burguesia em se apoiar no seu estado para coibir ações democráticas e legitimar a repressão. Entretanto, dessa vez esse discurso ideológico não foi suficiente. A resposta, quatro dias depois, foi a massificação do movimento em patamar que atingiu centenas de milhares nas principais capitais de todo o Brasil, em particular São Paulo e Rio de Janeiro, onde mais de 1 milhão de pessoas foram as ruas.

Iniciavam-se assim as jornadas de Junho de 2013, onde os manifestantes deixavam claro nos seus gritos que “não era somente por 20 centavos”. Milhares de cartazes tomavam as avenidas de São Paulo como a Faria Lima, pela primeira vez em muitos anos até as faixas da Marginal Pinheiros eram ocupadas. O palácio do Governo do estado e o Planalto Central eram cercados. Novas bandeiras em defesa dos serviços públicos em geral, como saúde e educação, se somavam as reivindicações dos manifestantes, sempre acompanhado com denúncias dos diversos casos de corrupção do establishment.

A burguesia retornou a sua localização de essência dentro do Estado, amedrontou-se, remeteu-se a sua defensiva histórica para proteger suas instituições e regime de dominação, e tinha pavor só de imaginar o que poderia acontecer se a classe operária entrasse na cena política em meio a essa revolta popular, que na prática já não era mais dirigida pelo MPL.

Junho foi um movimento social de direita?

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Jornadas de Junho. 2013. São Paulo, SP – Rafael Stedile

Percebendo que a política de criminalização dos protestos era insuficiente para deter as manifestações, o capital e seus protagonistas tiveram que se relocalizar. Abriu-se um momento de disputa para a direção do movimento. E a própria localização do PT não permitia se apoiar nos protestos, já que as jornadas de junho marcam a quebra do epicentro de hegemonia petista até então dos últimos 10 anos. Entretanto, a direita tradicional também não se beneficiava. O resultado imediato era nítido na cara de desmoralização de Haddad e Alckmin, que juntos em coletiva de imprensa tiveram que retroceder e anunciar a revogação do aumento da passagem, entre outras concessões.

O conflito aberto já transcendia a questão do transporte público. A popularidade dos governantes desmoronava. Segundo pesquisas do Datafolha na época, a aprovação do Governo Dilma, que até o final de março era de 65%, no final de junho já estava na casa dos 30% [1]. No mesmo período, Alckmin despencava dos 48% a 38%, e Fernando Haddad dos 31% a 18% [2]. Nenhum partido tradicional do regime político brasileiro conseguia surfar nas ondas das jornadas de junho, e capitalizar o movimento social. Enquanto, a direita tradicional tentava deslocar o centro dos protestos para a corrupção petista, com apoio da mídia oficial como a Rede Globo, e o surgimento de novos movimentos de direita como o “Vem pra Rua”, fazendo alusão nacionalista de que o “Gigante havia acordado”, o PT por sua vez buscou a se relocalizar por um breve momento reivindicando a democracia dos protestos, e tentando colocar como centro a pauta de Reforma Política, que nada mais era do que medidas cosméticas para salvar o regime político burguês.

Todavia, essa linha política do PT sofre uma transição nos meses seguintes. Apoiando-se na pluralidade do movimento, e em particular, num conflito que havia ocorrido entre manifestantes na avenida paulista, que resultou na retirada das organizações de esquerda do ato, e na queima de diversas bandeiras vermelhas do PT, movidas pelo grande sentimento autonomista e apartidário ideologicamente fortalecido pela mídia, e pela própria burguesia [3], entre os manifestantes. A dita intelligentsia petista, composta por intelectuais como Marilena Chauí, começam a proliferar a tese de que os protestos eram influenciados e controlados por forças da direita e extrema direita.

Chauí, no começo minimizava o impacto político dizendo que “As manifestações de junho não mudaram o país” [4], com o objetivo de institucionalizar as manifestações, através da defesa das reformas tributárias e política de Dilma, passou posteriormente, ao passo que o governo federal vinha perdendo força, a centrar no discurso contra a tática “Black Block”, localizando as ações dos protestos como fascista. “Temos três formas de se colocar. Coloco os “blacks’ na fascista.” [5], dizia Marilena Chauí. Uma operação ideológica, que confundia conscientemente com fascismo, o que eram ações de um setor minoritário do movimento de concepção anarquista e autonomista (influenciado por manifestações internacionais como as zonas ocupadas em Seattle), cujas ações resumiam-se a atacar com radicalidade as instituições e os símbolos do capitalismo durante as passeatas, mas que acabavam sendo um entrave para a massificação do movimento na classe operária.

Para Chauí a preocupação justamente não era em torno de massificar os conflitos, pelo contrário, era de blindagem do governo de conciliação de classe petista, agitando como palavra de ordem a “onda conservadora” (sustentada ainda mais após a eleição de Trump), criando nas ruas “um caldo de cultura perigosíssimo… Porque é nele que se forjam as ditaduras e as tiranias, as formas de cerceamento das liberdades e das conquistas do Brasil desde a Constituição de 1988…Temos efetivamente a consolidação de uma perspectiva conservadora e reacionária, que não tem plano, só ressentimento.”

Cria-se, assim, uma linha teórica paralela petista dentro do movimento, para caracterizá-lo de extrema direita, colocando em risco um suposto governo “popular e democrático” do PT. Como se junho fosse a preparação de um Golpe no Brasil, e não que esse golpe, viria anos mais tarde, não das ruas e dos protestos, mas sim de forma institucional articulado pelos próprios aliados que o PT contou nos 13 anos de governo, a bancada da bala, a bancada ruralista, a bancada evangélica, o centrão e do próprio vice-presidente Michel Temer.

Na realidade, as jornadas de junho de 2013 representaram a ruptura de setores de massa com o atual establishment político, desmoronaram os partidos tradicionais que a burguesia se apoiava, aprofundaram as crises das classes médias com o regime e as instituições, e com a quebra da hegemonia petista promoveram uma fissura importante da burguesia brasileira, abrindo uma nova etapa de crise orgânica no país, colocando no epicentro da crise capitalista internacional, com avanço das deteriorações inflacionárias e econômicas. Fortalecia-se a disjuntiva entre um forte proletariado nacional e a necessidade cada vez maior da burguesia descarregar a crise e manter sua taxa de lucro, despejando-a sobre as costas dos trabalhadores.

Nesse sentido, que é possível compreender por que esse discurso petista das jornadas de junho de 2013, vai se combinar com a política da burocracia sindical, em particular da CUT e da CTB, em impedir que a classe operária fosse um fator determinante no processo para superar a crise de hegemonia, e responder as demandas estruturais que os protestos representavam.

A classe operária brasileira tinha condições de hegemonizar?

Aqui abrimos um diálogo com todos aqueles que consideram que as direções burocráticas das centrais sindicais e dos sindicatos, pelo nível de ofensiva reacionária do último período, principalmente após a reforma trabalhista, não possuem condições objetivas e subjetivas para se colocar como freio concreto nas mobilizações. Se atualmente não é assim, muito menos naquela época que o regime sindical era alicerce de sustentação dos governos petistas, e provedor do pacto social de pacificação com a burguesia.

Primeiro, começamos pelos dados objetivos. Um ano antes das manifestações de junho, em 2012, o número de greves no Brasil já superava o patamar histórico dos últimos 16 anos. Foram registradas 873 ocorrências, que representavam um aumento de 58% em relação ao ano anterior [6]. Essas greves de conjunto tinham como principal motivação os fatores econômicos, atrelados a reajuste salarial, melhores condições de trabalho e nos planos de carreira. Contrariando a aparente expectativa, essas greves se concentravam mais nos setores privados da economia, do que no público. E apresentavam resultados supostamente satisfatórios, pois eram determinados por critérios muitas vezes ligados a acordo feitos com a própria burocracia sindical, CUT, Força Sindical, UGT, CTB, que atuavam como mediadoras dos conflitos, para que as greves ficassem isoladas e não assumissem um caráter mais radicalizado, como aconteceu no ano anterior nas greves “selvagens” da construção civil em Jirau e Belo Monte, à revelia dos próprios sindicatos.

O que essas greves demonstravam é que o governo “popular e democrático” do PT, era na realidade o governo do trabalho precário, da superexploração e dos pactos de lucratividade com o alto escalão da burguesia, e seus compromissos com o capital financeiro e imperialista. Em 2013, a média de greves, vai sustentar essa tendência. O recorde que se estabeleceu em 2012, será novamente superado. Mais de 2 milhões de trabalhadores se mobilizaram em paralisações e greves no ano de 2013, representando um aumento de 134% em relação ao ano anterior [7]. Para além dos fatores econômicos de 2012 aparecerem novamente entre as motivações que levavam os conflitos, somava-se a questão da manutenção dos direitos sociais garantidos pelos ACT’s (acordos coletivos de trabalho), que durante o Governo de Dilma começaram ser fortemente atacados, em consonância com o setor patronal.

Diante a esses fatos, que indicavam uma tendência crescente de mobilização, não é necessário ser um grande estudioso do tema para se perguntar por que então a classe trabalhadora também não ocupou as ruas durante as jornadas de junho? Quando fazemos essa pergunta, não desconsideramos o fato de que havia sim milhares de trabalhadores nas manifestações, entretanto a participação espontânea deles, e de forma não organizada pelas suas direções, levavam que esse setor se diluísse em meio a massa significativa de jovens presentes nos atos, além do que somado a isso a intervenção cirúrgica da burocracia sindical para não “politizar” os conflitos, e assim, isolá-los, separaram os trabalhadores das reivindicações democráticas levantadas em junho.

Vale lembrar que, naquele momento, ainda havia uma coalizão de todos os setores da burocracia sindical, que sustentavam a agenda econômica do governo petista, que duraria até a reeleição de Dilma, onde a Força Sindical e UGT anunciaram apoio à candidatura de Aécio Neves. As direções dos sindicatos, em cada greve ou paralisação, respondiam a pressão instalada na base para concentrar a luta em torno da manutenção dos direitos e de índices de reajuste condizentes com a inflação determinada pelo período. Muitas greves se fechavam com esses acordos, e muitos setores de vanguarda dessas lutas que queriam ir por mais, acabavam sendo neutralizados pelas direções burocráticas da CUT, CTB e Força Sindical.

Essa pressão instalada na base se intensificou ainda mais em meio as jornadas de junho. Chamados a greve geral se difundiam em todas as redes sociais de forma espontânea, e as cúpulas das centrais sindicais, atuavam conjuntamente como bombeiros para apagar o fogo no movimento operário. A tese petista de direitização do movimento também foi empregada, assim como analisa a própria CUT: “Quando aconteceram as históricas jornadas de junho de 2013, visualizamos que os desdobramentos teriam consequências imprevisíveis pelo simples fato que os movimentos amorfos e sem cabeça poderiam ser apropriados pelos espertos de plantão (a grande elite política empresarial do país e sua imprensa marrom) e foram. A disputa política pelo legado do movimento deu desenho e contornos aos sentimentos e valores autoritários, raivosos e que beiravam ao fascismo.” [8]. Já o vice-presidente nacional do PT em 2019, Alberto Cantalice, foi além, e não teve nenhum pudor em comparar as manifestações de junho de 2013 com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que antecipou o golpe militar de 1964: “Junho de 2013 foi como a Marcha da Família em 1964, uma ação das classes médias. A grande diferença era etária, enquanto a de 64 eram as ‘senhoras’ as de 2013 eram os jovens.” [9], disse Alberto.

A burocracia sindical, dirigida diretamente pelo governo petista, como parte estrutural do seu governo baseado no controle direto do regime sindical, atuou, portanto, conscientemente e decisivamente, para que a classe trabalhadora não confluísse com os protestos de junho de 2013, afinal condições objetivas e oportunidades ao longo daqueles meses está expressamente visível que não faltaram. Junho de 2013, é mais um sintoma de como durante os anos de governo petista abriram caminho para o golpe institucional em 2016, não pelo movimento da luta de classes espontânea das ruas, mas sim em decorrência direta de uma política de colaboração de classe e preservação do regime burguês pelas direções do movimento operário.

A oposição de esquerda e os problemas estratégicos atuais

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Jornadas de Junho. 2013. São Paulo, SP – Rafael Stedile

Outro fator que contribui para a classe operária não ser um sujeito hegemônico durante a etapa aberta pelas jornadas de junho de 2013, foi a adaptação de setores da esquerda reformista e centrista, opositores ao governo Dilma na época, à política petista e a burocracia sindical. A bem da verdade é que a esquerda que se reivindica socialista passou a margem do fenômeno ocorrido em junho. Não conseguiu capitalizar o processo, seja ação prática no momento dos conflitos, como em seguida ao não fazer um balanço significativo e extrair lições daquelas lutas que haviam mudado o curso dos acontecimentos no país.

Não há registro nem do PSTU, através da CSP-Conlutas, muito menos do PSOL e de suas figuras parlamentares de nenhuma política que se delimitasse estrategicamente do PT, principalmente desde o movimento operário. No máximo, podia-se observar chamados inofensivos de greve geral que não estavam vinculados a denúncia da burocracia petista, e sua estratégia de não permitir que a classe trabalhadora pudesse protagonizar os atos nas mais diversas capitais no Brasil. Junho, apesar de composto majoritariamente pela juventude, também foi uma caixa de ressonância para novas lutas do movimento operário que se desenvolveriam no país em 2014.

Ou seja, também para a esquerda, não faltaram janelas de oportunidades que se abriram, mesmo depois dos protestos. A disposição dos trabalhadores de se enfrentar com a burocracia sindical não encontrava resposta nos dirigentes políticos e sindicais da esquerda. No carnaval de 2014 isso se expressou nas lutas dos garis, que em meio ao principal feriado nacional irromperam a cena política do país, enfrentando governos municipal e estadual, a patronal e a política colaboracionista da UGT nos sindicatos. Os dirigentes sindicais falavam na mídia abertamente contra a greve, e os trabalhadores respondiam aos milhares naquela maré laranja que tomou as ruas cariocas.

Em Porto Alegre, meses depois, os rodoviários também tomaram a cena. Ganharam o apoio da população, chegando a permitir em meio a greve medidas como o passe livre, atropelaram a burocracia da Força Sindical, e com muitos elementos de auto-organização resistiram aos ataques das patronais de transporte e da prefeitura de Porto Alegre. No mesmo ano, os metroviários de SP, com setores do PSTU e da CSP-Conlutas a frente do sindicato, os trabalhadores protagonizaram uma forte greve de 5 dias pelos seus direitos contra o governo Alckmin, e que tiveram uma repercussão na imprensa internacional pelo fato da Copa do Mundo que seria realizada no mês seguinte no Brasil. Uma greve, que apesar de muito forte, teve como desfecho uma derrota com a demissão de 42 metroviários, que foram reintegrados apenas anos mais tarde em 2018.

Esses conflitos demonstram que se a esquerda tivesse uma política de hegemonia operária, e se delimitasse da burocracia sindical, organizando assembleias nos locais de trabalho, exigindo a unificação das lutas a partir dos seus sindicatos, era possível ser uma forte pressão para que os conflitos operários pudessem saltar de um patamar econômico para apresentar respostas políticas e democráticas radicais ao conjunto do movimento que tomavam as ruas e protestos. A ausência dessa estratégia revolucionária, não só não combateu as teses petistas relacionadas a junho, como também permitiu que a extrema direita capitalizasse politicamente os desdobramentos da conjuntura e da situação política no país.

Esses fatos se intensificam ainda mais no processo de golpe institucional em 2016 com a capitulação do PSTU e do morenismo ao impeachment que tirou Dilma da presidência, pelas mãos da direita. Representado simbolicamente naquele show de horrores e de homenagens a torturadores na votação no Congresso Nacional, ao mesmo tempo que figuras como Zé Maria e Luciana Genro declaravam posições abstencionistas, coloridas de vermelho por uma política de “Fora Todos”. Resultado de uma visão teórica objetivista que secundarizava o aspecto central do sujeito revolucionário, já alarmante durante junho, e mais ainda nos anos seguintes. Esses setores eram extremamente indiferentes, portanto, se o governo do PT fosse derrubado pela classe trabalhadora, ou pela direita. Confundiram revolução com golpe.

Um golpe que abriu ainda mais espaço para burguesia avançar contra as liberdades democráticas da população, orquestrar a prisão arbitrária de Lula através da operação Lava Jato (sempre tão defendida implicitamente nos materiais do PSTU, ou diretamente por correntes como o MES-PSOL), deteriorar ainda mais o regime democráticos através dos super poderes dados ao STF, manipular as eleições de 2018 atacando o sufrágio universal levando Bolsonaro ao poder, e principalmente avançar na agenda de reformas neoliberais e privatizantes.

Por outro lado, outros setores da esquerda diante a intensa polarização política aberta pela crise orgânica foram cada vez mais se reaproximando do PT. A candidatura de Boulos já em 2018 pelo PSOL sinalizava essa estratégia de conciliação, conformada por diversas correntes reformistas no interior do PSOL, junto com a Resistência, ruptura do PSTU diante a capitulação do partido ao golpe institucional. Valério Arcary, diferentemente da genuína tese petista de “Junho de direita”, fala na realidade que junho foi cooptado e derrotado, porém isenta a burocracia sindical de responsabilidade nas derrotas da luta de classes, e essa derrota que para Valério aparentemente não possui responsáveis é que permite o avanço do “fascismo nas ruas” em 2015 e 2016: “Mas a derrota do impulso de junho de 2013 enfraqueceu a luta popular, e facilitou o caminho para que os fascistas disputassem a hegemonia nas ruas em 2015/16, exigindo o impeachment e pedindo intervenção militar. Ali foi chocado o ovo da serpente do qual surgiu Bolsonaro.” [10]. 

Ao tratar a etapa aberta em junho como fechada, Valério não fala quem foi responsável pelas derrotas da juventude e da classe trabalhadora. Diz que os “fascistas disputaram a hegemonia”, porém parece que “esquece” a política pacifica de não resistência ao golpe institucional pelo PT, e a traição das centrais sindicais na breve conjuntura pré revolucionária aberta no país em 2017 na luta contra a reforma trabalhista, que teve como desfecho o espúrio acordo da burocracia não cumprido por Rodrigo Maia em relação ao imposto sindical. Assim como a nova traição das centrais da greve geral em 2019, com a aprovação da reforma da previdência, que consolidou a situação reacionária do governo Bolsonaro vivida atualmente no país. O ovo da serpente a qual surgiu Bolsonaro, cultivado pela burguesia e a grande imprensa, quando chocado não foi quebrado pelo PT, Lula e seus aliados.

Entretanto, as crises no regime atual com a consolidação da abertura de uma nova conjuntura política a partir dos atos do 29M mesmo numa situação reacionária, demonstra que a crise orgânica aberta pelas jornadas de junho de 2013 não foi solucionada, ainda que ganhou novos contornos. Apesar das derrotas categóricas organizadas pela traição do PT e da burocracia sindical, os trabalhadores demonstram sinais de resistência. A burguesia permanece fracionada, e com muitas fissuras, novas janelas de oportunidades devem se abrir para que os ventos da luta de classe do segundo ciclo internacional que chacoalha a América Latina possam chegar ao Brasil. Os atos de rua demonstram disposição de luta, que o PT e a esquerda institucional querem canalizar para uma estratégia de desgaste eleitoral para frente ampla com Lula em 2022, junto com o “centrão”, separando novamente a juventude da classe trabalhadora. Esse não pode ser novamente o caminho para os trabalhadores. Uma esquerda revolucionária precisa tirar as lições corretas de Junho. Essa farsa já foi revelada, e podemos evitar a tragédia.

Notas

[1] Pesquisa Datafolha divulgada no link https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44310600.

[2] Idem.

[3] Não foi apenas um caso isolado de empresas, onde os respectivos chefes dispensavam seus funcionários para participar do protesto com centro na questão de combate a corrupção, agitado pela grande mídia.

[4] Declaração da professora ao portal Carta Maior em 11/09/2013, disponível no link https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Marilena-Chaui-%27nao-As-manifestacoes-de-junho-nao-mudaram-o-pais%27/4/28565.

[5] Declaração de Marilena Chauí em palestra promovida na Academia da Polícia Militar do Rio de Janeiro, disponível em: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/black-blocs-agem-com-inspiracao-fascista-diz-filosofa-a-pms/.

[6] Dados coletados na pesquisa realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) em 2012.

[7] Recorde da série histórica do DIEESE no ano de 2013, em base a estudo e levantamento realizado pelo Departamento. Presente em “As greves de 2011 a 2013” e “Balanço das Greves em 2013”.

[8] Marcio Kieller, presidente da CUT/PR em junho de 2020, disponível em: https://www.cut.org.br/artigos/as-jornadas-de-junho-de-2013-e-o-surgimento-da-extrema-direita-no-brasil-1b88

[9] Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/vice-presidente-do-pt-compara-2013-com-marchas-pro-ditadura/

[10] Disponível em: https://jacobin.com.br/2021/06/a-cooptacao-de-junho-de-2013-oito-anos-depois/

Bibliografia

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44310600

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Marilena-Chaui-%27nao-As-manifestacoes-de-junho-nao-mudaram-o-pais%27/4/28565

https://www.ocafezinho.com/2013/08/28/chaui-fala-sobre-manifestacoes/

https://revistacult.uol.com.br/home/marilena-chaui-violencia-e-autoritarismo/

https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/black-blocs-agem-com-inspiracao-fascista-diz-filosofa-a-pms/

https://epoca.oglobo.globo.com/tempo/noticia/2016/03/marilena-chaui-ha-nas-ruas-um-caldo-perigoso-onde-se-forjam-ditaduras.html

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https://www.redebrasilatual.com.br/trabalho/2015/12/greves-em-2013-atingiram-recorde-e-mobilizaram-2-milhoes-7006/

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https://brasil.elpais.com/brasil/2014/05/21/politica/1400696438_164932.html

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https://www.terra.com.br/noticias/brasil/legado-dos-protestos-de-junho-de-2013-sobrevive-nas-greves,efb9978c85776410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html

https://jacobin.com.br/2021/06/a-cooptacao-de-junho-de-2013-oito-anos-depois/

https://outraspalavras.net/cidadesemtranse/o-que-nos-dizem-os-cartazes-de-2013/

Para citar este artigo

GUARNIERI, Felipe Mariante. Junho de 2013: “É tanta coisa que não cabe no cartaz”. Faísca | Centelha e História [Internet]. Disponível em: https://faisca.org/2021/09/junho-de-2013-e-tanta-coisa-que-nao-cabe-no-cartaz/ [Acessado em 26 de setembro de 2021].
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"Junho de 2013: “É tanta coisa que não cabe no cartaz”." Faísca | Centelha e História [Online]. Available: https://faisca.org/2021/09/junho-de-2013-e-tanta-coisa-que-nao-cabe-no-cartaz/. [Accessed: 26 de setembro de 2021]