Orlando Guy e Nicette Bruno em montagem de Anjo Negro, peça de Nelson Rodrigues, em 1948. Créditos: Estúdio Foto Carlos / CEDOC FUNARTE.

O escritor Gabriel Garcia Márquez já disse que arte e ciência não são tão distantes umas das outras como se imagina. Nesse sentido, afirma: “A ideia de que a ciência só concerne aos cientistas é tão anticientífica como é antipoético pretender que a poesia só concerne aos poetas.”. Afirma ainda que o próprio nome da agência multilateral Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco -, carrega consigo uma grave inexatidão, pois sinaliza para distinção entre elas, quando, na realidade, são uma coisa só. E em tom peremptório, arremata: “(…) a cultura é a força totalizadora da criação: o aproveitamento social da inteligência humana”.[i]

Nesse diapasão, a literatura é uma forma de representar e conhecer o mundo. Alguém já se disse que a literatura é uma inutilidade necessária. A arte de qualidade, no nosso caso a literatura, inquieta, perturba, impelindo à reflexão sobre o nosso estar no mundo (Leia aqui um pouco mais). A literatura, e as artes, em geral, provocam e concitam-nos a sair da modorra da prosaica e, muitas vezes, massacrante vida adulta.

Convido os leitores para uma viagem por três textos literários que discorrem sobre o tema da raça e do racismo: “O Mulato”, “Anjo Negro” e “Viva o Povo Brasileiro”. Elas retratam momentos históricos bem distintos. Em comum, o tema do racismo. Cada uma à sua maneira penetra em questões caras e ainda hoje mal resolvidas. A primeira obra, um romance publicado em 1881. A segunda, uma peça teatral escrita em 1946, mas somente encenada em 1948. A terceira, um romance publicado alguns anos antes do centenário da abolição da escravatura, precisamente em 1984. Vejamos cada um deles.

“O Mulato”, romance naturalista, de autoria de Aluísio Azevedo (1857–1913). É ambientado na cidade de São Luís, terra natal do autor, no período anterior à abolição do trabalho servil, e publicado sete anos antes da aprovação da Lei Áurea. Aborda o preconceito e o racismo da sociedade maranhense, tendo como pano de fundo uma história de amor.

O protagonista da história, que atende pelo nome de Raimundo, é um mulato, filho bastardo do rico comerciante português, José, com uma de suas escravas, Domingas. Ao saber da afeição e da relação sexualmente pulsante entre o marido e a escrava, a esposa de José passa a castigar Domingas, de maneira inclemente, culminando na ordem de mandar queimar sua genitália. Diante dos maus tratos, e temendo pela sorte do filho, o comerciante envia-o, ainda criança, para educar-se em Lisboa, onde após formar-se em Direito, regressa ao país, disposto a conhecer suas origens, e tomar posse da herança deixada pelo seu genitor, a qual se encontrava sob a responsabilidade do seu tio Manuel. Nesse momento, o mulato é lançado no olho do furacão.

Raimundo é descrito como de “tez morena e amulatada, mas fina”. Segue o autor, “grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos”, “estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa”.[ii] Nosso protagonista possui características de um verdadeiro dândi: bom gosto e elegância no vestir, amante das artes, ciência e literatura, além de falar baixo e com sobriedade, sem esquecer a herança a que tinha direito. Com exceção da origem racial, seria o que se chama de “um bom partido” para qualquer moça à procura de um bom casamento. Ou seja, nada livra-o do preconceito.

Azevedo aborda a questão em termos das origens raciais do personagem, naquilo que Oracy Nogueira denomina racismo de origem,[iii] isto é, o preconceito e a discriminação dizem respeito à origem racial dos indivíduos, não importando o fenótipo. Raimundo é um não-branco, filho de uma negra escravizada, logo um indivíduo de segunda classe. Apesar de a mistura racial ter sido generalizada no Brasil, como argumenta o sociólogo norte-americano Edward Telles, no seu livro “Racismo à brasileira”, ele também assevera que, no período de 1850 a 1930, predominou a perspectiva de supremacia branca. Ou seja, a ideia de que a mescla racial da população conduziria à degeneração biológica, mental e moral, condenando o país ao atraso socioeconômico infindável.

Voltando à nossa história, o mulato se apaixona perdidamente pela prima, Ana Rosa, a qual corresponde ao seu amor na mesma intensidade. Evidentemente, a família da jovem tinha outros planos para a filha. Em estratagema urdido pelo pai da jovem, com ajuda do cônego local, o nosso dândi dos trópicos é morto. Anos depois, Ana Rosa casa-se com o assassino de Raimundo, passando a levar uma vida burguesa com seus três filhos.

A história narrada por Azevedo não é singular na história universal da escravidão. Desde Roma, senhores se deleitavam sexualmente com suas escravas. Talvez, no Brasil, dado o grande número de africanos e africanas escravizados, os contatos sexuais entre esses dois grupos tenham sido mais intensos do que nos demais países, forjando um país altamente miscigenado. Todavia, isso não faz do Brasil um caso sui generis, como assim quis fazer a interpretação que se tornou canônica sobre a formação do país.

Alexis de Tocqueville [iv]relata no seu livro mais conhecido, “A democracia na América”, que, no sul dos Estados Unidos, era comum, fazendeiros brancos venderem seus filhos mestiços, frutos do intercurso sexual com escravas, como escravos.

No Brasil, temos o caso memorável de Luís Gama, vendido pelo próprio pai, um fidalgo português, em função de uma dívida de jogo. No entanto, a situação mais incrível e, certamente, mais embaraçosa, ainda não reproduzida pela literatura, nos relata Fábio Konder Comparato que, no interior paulista, um cidadão, após atingir a maioridade, alforriou a própria mãe, que havia recebido como parte da herança do pai. Vejam, receber como herança um lote de escravos, no qual se encontrava a própria mãe. Eis uma pérola do complexo e emaranhado sistema escravocrata brasileiro (leia aqui).[v] A literatura ficcional não logrou iterar, na sua plenitude, a incolumidade da tragédia humana.

No clássico livro do naturalismo nacional, Azevedo capta as ideias supremacistas da época. A mensagem é clara. Não importava a educação esmerada e metropolitana de Raimundo, nem mesmo seus olhos azuis. Ele era um negro, pois filho de uma escravizada. Longe de ser um exemplar degenerado fruto da miscigenação, pelo contrário, descrito como um autêntico dândi, tudo isso estava fora de questão. A origem racial era o que importava. Porém, a herança, essa, sim, deveria ficar em mãos brancas (seria por direito divino?).

No ano em que se celebrava a redemocratização do país com a promulgação da Constituição de 1946, Nelson Rodrigues (1912–1980), jornalista, cronista e dramaturgo pernambucano, considerado, por muitos, o maior teatrólogo brasileiro, radicado no Rio de Janeiro, para onde se mudou ainda criança, escreveu a peça teatral Anjo Negro: tragédia em três atos. Censurado por dois anos, foi, finalmente, encenada em 1948, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

O papel principal fora originalmente escrito para ser interpretado por Abdias do Nascimento, todavia, as autoridades impuseram a condição de que o protagonista do drama, o médico negro Ismael, fosse interpretado por um ator branco. Assim, repetiu-se a prática de brochar um ator branco de preto.[vi] No dizer de Nascimento, “temiam, naturalmente, que depois do espetáculo o Ismael, fora dos palcos e na companhia de outros negros, saísse pelas ruas caçando brancas para violar (…).”[vii]

Yes, no país da democracia racial também havia a prática do black face. O infame recurso de tingir pessoas brancas de preto, pois não se aceitava atores e atrizes negros nos papéis principais em peças teatrais, filmes e novelas. Esse não foi o único exemplo de utilização do black face. No final da década de 1960, no auge do movimento pelos direitos civis, nos Estados Unidos, para interpretar o protagonista da novela “A cabana do Pai Tomás”, o ator Sérgio Cardoso foi maquiado para parecer um homem negro (leia aqui).

No mesmo período, Sidney Poitier ganhara os prêmios, Globo de Ouro e Oscar, de melhor ator de 1964, por sua atuação em Uma Voz nas Sombras, tornando-se o primeiro ator negro a ganhar o cobiçado prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos (confira aqui). Depois, outros filmes de sucesso vieram, entre eles, os inolvidáveis e emblemáticos “Ao Mestre com Carinho” e “Adivinhe Quem Vem para Jantar”, ambos no ano de 1967.

Aliás, o Teatro Experimental do Negro, criado por iniciativa de Abdias do Nascimento, em 1944, deu-se por conta dessa prática: brancos caiados de pretos interpretando personagens negros. Chocado com a experiência de assistir ao espetáculo “O imperador Jones”, no Teatro Municipal de Lima, em 1941, peça escrita pelo dramaturgo afro-americano Eugene O’Neill, cujo protagonista era um homem negro, todavia, interpretado por um ator branco pintando de preto, Nascimento decidiu fundar “um organismo teatral aberto ao protagonismo do negro, onde ele ascendesse da condição adjetiva e folclórica para a de sujeito e herói das histórias que representasse”.[viii] Assim surgia o Teatro Experimental do Negro, o TEN.

Os atores Orlando Guy e Nicette Bruno em montagem de Anjo Negro, peça de Nelson Rodrigues, em 1948. Créditos: Foto Carlos / CEDOC FUNARTE.
Os atores Orlando Guy e Nicette Bruno em montagem de Anjo Negro, peça de Nelson Rodrigues, em 1948.
Estúdio Foto Carlos / CEDOC FUNARTE.
Projeto Brasil, Memória das Artes

Voltemos à peça de Rodrigues. Texto de natureza dramática, poucas vezes encenado, retrata a ascensão social de um médico negro, Ismael, e sua conturbada relação com sua esposa branca, Virgínia, que contraditoriamente, tem profunda aversão a pessoas negras. O enlace matrimonial não elimina a clivagem racial. Conforme assinala Nascimento, “a cor produz a anafilaxia que deflagra a violenta ação dramática e reduz os esposos à condição de inimigos irremediáveis.”[ix]

O prolífero casal gera filhos. Todos assassinados pela mãe, tão-somente por terem nascidos pretos como o pai, sob seu conhecimento complacente, silencioso e covarde, que, passivamente assiste aos infanticídios. Da quarta gestação de Virgínia, nasce Ana Maria, uma criança branca, filha de Virgínia com Elias, irmão de criação do médico, branco e cego. Sabedor da traição da esposa, Ismael mata o irmão, e acolhe a menina com amor paternal.

No entanto, atormentado pelo medo de ser igualmente desprezado pela filha, o médico manipula fórmulas e administra medicações para torná-la cega. Assim, sem distinguir a cor daquele que chamaria de pai, poderia amá-lo. Passados 16 anos do nascimento da filha, Virgínia descobre que os laços que unem Ismael a Ana Maria não são apenas de caráter paterno-filial, mas também incestuoso. A esposa traída confessa sua ardente atração por homens negros e convence o médico a matar a própria filha, trancafiando-a em um túmulo de vidro.  Em seguida, o casal se entrega à volúpia. Na peça, o coro de mulheres pergunta: “Vosso amor e vosso ódio não têm fim neste mundo ?”[x]

A peça foi novamente encenada em 1994. Contudo, segundo Abdias, apesar de livres da censura, os produtores optaram por enfatizar os impulsos e perversões de natureza sexuais e, por “esvaziar a questão racial, verdadeiro âmago da obra, abordada (…) de forma tão contundente que dificilmente a sociedade brasileira, até hoje, consegue compreendê-la.”[xi]

O texto de Rodrigues questiona a democracia racial e suas promessas de igualdade e integração dos não-brancos, notadamente os negros, de que caso se esforcem, estudem, trabalhem duro, obtenham um diploma universitário, uma profissão socialmente reconhecida, quem sabe poderão galgar posições sociais. No período de 1930 até o final dos anos de 1970, verificou-se a fase em que ideia de democracia racial gozou de grande prestígio, praticamente um consenso nacional, sob a égide do conceito sociológico de classes sociais, não só entre as elites e a intelligentsia nacional, como também com a aquiescência de parte dos líderes negros.[xii]

A terceira obra é o romance “Viva o Povo Brasileiro”, do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (1941–2014), de 1984, nos estertores da ditadura militar. O livro é uma narrativa de longa duração (quatro centenas de anos), ambientada na Ilha de Itaparica e em Salvador, Bahia, chegando ao Rio de Janeiro, São Paulo e Lisboa, de maneira irônica e satírica. Uma de saga da formação nacional, a partir da perspectiva da miscigenação racial.

Esse romance de Ubaldo Ribeiro pode ser definido como ficção histórica,[xiii] na qual, no dizer do próprio escritor, “(…) não existem fatos, só existem histórias”. Ou seja, a construção histórica necessariamente apoia-se na veracidade dos acontecimentos, mas na sua reconstituição com base na memória e na interpretação, transformados em histórias.[xiv]

Em “Viva o Povo Brasileiro”, temos três linhagens centrais. No estrato social mais baixo, os descendentes do “caboco Capiroba”, “filho de uma índia com um preto fugido que a aldeia acolheu.”[xv] No ponto mais alto da escala social, a estirpe portuguesa, personificada na figura de Perilo Ambrósio Góes Farinha, português, que graças aos seus “feitos memoráveis”[xvi] na guerra de independência, alcançou o título nobiliárquico de Barão de Pirapuama. Entre essas duas camadas sociais, entre os dois ramos familiares, encontra-se Amleto Ferreira, o guarda-livros do barão, nascido mulato, filho da professora negra Jesuína Ferreira, com um suposto marinheiro inglês de passagem pelo porto da cidade da Bahia.

Interessa-nos aqui a trajetória de Amleto, sua ascensão econômico-social, que de mestiço bastardo, à medida que enriquecia transmutava de cor, ou seja, se embranquecia. Aproveitando-se da sua posição de guarda-livros, manipula os balanços das empresas do patrão e começa a amealhar sua fortuna. Após alguns anos, já estabelecido como um rico comerciante, contando com a ajuda, muito bem remunerada, de um clérigo, obtém uma certidão de nascimento na qual exibia o pomposo nome, Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton, atestando a sua origem anglo-brasileira, cujo sobrenome, Ferreira-Dutton, seria mantido e ostentado pelas gerações vindouras. O ápice social da família é simbolizado na união matrimonial de uma descendente do mulato Amleto Ferreira com filho de “poderosa família paulista”,[xvii] nos anos de 1970.

O texto de João Ubaldo pode ser lido sob a chave das teses de outro João, o médico e cientista eugenista, João Baptista de Lacerda, que, em 1911, no Congresso Universal das Raças, prognosticou que no Brasil, em uma centúria, não mais haveria negros e indígenas, a não ser uns traços insignificantes das suas existências.[xviii] Passados mais de um centenário das predições do à época eminente representante da ciência nacional, a literatura do livro de Ubaldo Ribeiro fica ainda mais instigante.

Entretanto, a questão é que o futuro prenunciado por Baptista de Lacerda não se realizou. Na realidade, a escalada social de Amleto Ferreira encontra amparo nas teses do pensador martinicano Frantz Fanon, na justa medida em que enriquece, embranquece, simultaneamente ao branqueamento segue o aumento da riqueza material e adquire da boa reputação.[xix]

Os três livros, escritos no intervalo de cem anos, “O Mulato”, de Azevedo, publicado em 1881, no imediato pré-abolição; “Anjo Negro”, de 1946; e “Viva o Povo Brasileiro”, de 1984, anos antes das efemeridades do centenário da Abolição, nos oferecem uma visão em perspectiva de como o tema racial foi abordado: a integração da população negra à sociedade brasileira.

Um traço comum aos personagens centrais nas três histórias é que são homens, que apesar nos seus diferentes tons de pele, identificados com não-brancos, enfim, negros. Todos na busca do amor ou de um matrimônio com a mulher branca. Sobre a relação do homem negro com a mulher branca, Fanon anota o seguinte: “Nestes seios brancos que minhas mãos onipresentes acariciam, é da civilização branca, da dignidade branca que me aproprio.”[xx] Essa relação neurótica é expressa com intensidade e destemor em “Anjo Negro”.

Uma obra literária reflete o espírito do seu tempo. No final do século XIX, a grande preocupação das elites era com o enorme contingente de população negra. A mistura racial era fator de degenerescência. Azevedo captura esse debate. Os belos olhos azuis de Raimundo, sua elegância, bons modos e riqueza, não poderiam suplantar e remover suas origens negro-africanas. Impossibilidades definidas, restava então a sua desaparição, cuja sentença foi ditada por representante clerical.

Em “Anjo Negro” sente-se a potência incômoda do teatro nelsonrodriguiano, revisitando os recalques, as perversões e as taras humanas. O texto de Rodrigues produz o mal-estar ao abordar temas controversos como o do preconceito racial, em um período de afirmação da ideia de democracia racial. Ao invés de fazer coro com a maioria, Rodrigues escancara o racismo realmente existente na sociedade brasileira.

“Viva o Povo Brasileiro”, construção satírica da formação nacional, faz ode à democracia racial, em um tempo em que já ecoava a crítica rotunda do Movimento Negro e de alguns poucos estudiosos da visão verde-amarela de idílio racial. Ribeiro traz a crítica à formação das nossas elites, à prática do racismo, e nos diz sobre a união do povo frente aos opressores, como no caso da morte do Barão de Pirapuama.

O fato é que, desde o período da independência, uma das grandes preocupações das elites brasileiras era com a composição racial do país, atemorizadas com o determinismo racial em voga, que fixava trajetória e destino nacional. Para muitos, o país estava condenado ao atraso por conta da imensa quantidade de gente negra. No momento em que “O Mulato” foi publicado, predominavam as ideias do Conde de Gobineau acerca da desigualdade entre raças e de que a miscigenação era a mãe da degeneração moral, social e psíquica de uma sociedade. Ao tempo que, as teses de Batista de Lacerda de branqueamento, via de mistura racial, ainda não haviam sido formuladas.

O manto ideológico da democracia racial ganha forma e conteúdo na década de 1930 e perdura por mais de 50 anos. “Anjo Negro” questiona e, de certa maneira, arranha a imagem da democracia racial. Por seu turno, “Viva o Povo Brasileiro”, ironiza, crítica, mas acaba por sacralizar o mito.

Dissemelhantemente ao do que prega a democracia racial: a desimportância da raça para os brasileiros, as três obras aqui descritas e outras tantas, como, por exemplo, o suprassumo da perspectiva eugênica na literatura brasileira, “O Presidente Negro”, de Monteiro Lobato, abordam a questão da raça de maneira mais ou menos direta ou nas entrelinhas, naturalizando lugares sociais de prestígios ou subalternos, associando-os à cor da pele dos seus ocupantes. A raça é uma dimensão notável da formação nacional. Concordamos que raça sozinha não explica tudo, mas sem ela, tampouco.

Os três protagonistas compartilham a solidão do indivíduo negro na sociedade dos brancos. Uns por imposição, como é o caso do mulato Raimundo, que desde criança foi afastado do convívio familiar. Quando retorna à terra natal obcecado por descobrir suas raízes, deparar-se com uma sociedade que não o aceita, por ser mestiço, e cuja família paterna tem olhos unicamente para a sua herança. Os personagens Ismael e Amleto também vivem desgraçadamente a solidão. Ambos renegam suas respectivas mães. Certos de que os corpos negros maternos eram incompatíveis com, se não entraves para, a escalada social que almejavam.

As três obras literárias, escritas em um período de cem anos, retratam a solidão dos personagens negros protagonistas na literatura brasileira. Do ponto de vista social, são cinco centúrias de solidão na incansável, mas nem sempre vitoriosa, luta por justiça racial e social.

Há muitas histórias em que mãe e família são renegadas em função da nova posição social alcançada. Como o caso verídico ocorrido no Recife, em que uma mulher branca pobre, após se casar com um médico, no exercício do alpinismo social, proibiu a mãe e demais familiares de frequentar a sua nova residência, abstendo, inclusive, a avó do contato com os netos. Desculpem o clichê, mas na vida como ela é há mais dramas e personagens nelsonrodriguianos do que possa supor a nossa vã filosofia.

Não pretendi, até porque não tenho a expertise necessária, empreender uma análise literária das obras, mas chamar a atenção para alguns aspectos que possam nos ajudar a desvendar os cipoais sob os quais se escondem as muitas formas com que o racismo se expressa. Se este texto despertar o interesse pelas obras aqui trazidas, terá valido o esforço.

Notas

[i] Garcia Márquez, Gabriel. Eu não vim fazer um discurso. Rio de Janeiro: Record, 2011, p. 34

[ii] Azevedo, Aluísio de. O Mulato. Disponível em <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537>.

[iii] Nogueira, Oracy. Preconceito de marca: as relações raciais em Itapetininga, São Paulo, Edusp, 1998 [1955].

[iv] Tocqueville, Alexis de. A democracia na América. 2ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

[v] Comparato, Fábio Konder. “Um débito colossal”. In Folha de São Paulo. Opinião. São Paulo, 08 de julho de 2008. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0807200808.htm>.

[vi] Cf. Nascimento, Abdias. Teatro Experimental do Negro. Trajetórias e Reflexões. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 25, 1997, pp. 71-81, e Gadelha, Carmem. Anjo Negro: o elogio da diferença. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 25, 1997, pp. 72-89.

[vii] Nascimento, Abdias. Teatro Experimental do Negro. Trajetórias e Reflexões. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 25, 1997, pp. 71-81.

[viii] Id. Ibid. p. 72.

[ix] Ib. Ibid. p. 76.

[x] Rodrigues, Nelson. Anjo Negro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 3ed, 2005.

[xi] Id. Ibid. p. 77.

[xii] Guimarães, Antônio Sérgio A. Classes, Raças e Democracia. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo; 34, 2002.

[xiii] Fleck, João Cristiano e Nascimento, Naira de Almeida. Viva o povo brasileiro – leitura e os rasgos da nueva novela histórica. In: Revista de Letras, Curitiba, v. 15, n. 16, jan./jun. 2013. Disponível em https://periodicos.utfpr.edu.br/rl/article/view/2354.

[xiv] Fitzgibbon, Vanessa. Entre a paródia e a história: A identidade racial negra em “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro. In: Afro-Hispanic Review, 30(1), 2011, pp. 101-116. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/41350923>. Acesso em 24 de abril de 2021.

[xv] Ribeiro, João Ubaldo. Viva o Povo Brasileiro. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. Formato: ePub. Cap. 2, p. 26.

[xvi] Lembremo-nos de que “uma Verdade está sujeita à interpretação de um fato, e não a ele em si” (Fitzgibbon. Ibid. p. 102).

[xvii] Ribeiro, Ibid. Cap. 20, p. 410.

[xviii] Schwarcz, Lília M. Fontes. Previsões são sempre traiçoeiras: João Baptista e Lacerda e o seu Brasil branco. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, n. 1, jan./mar. 2011, pp. 225-242.

[xix] Na expressão de Fanon, “A causa é consequência: alguém é rico porque é branco, alguém é branco porque é rico.” (Cf. Fanon, Franzt. Os condenados da terra. Juiz de Fora, MG: UFJF, 2005, p. 56).

[xx] Id. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008, p. 69.

Para citar este artigo

GUIMARÃES, Carlos Augusto Sant'Anna. Cem anos de solidão dos personagens negros na literatura brasileira. Faísca | Centelha e História [Internet]. Disponível em: https://faisca.org/2021/05/cem-anos-de-solidao-dos-personagens-negros-na-literatura-brasileira/ [Acessado em 26 de setembro de 2021].
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