Bombardeio ao Palácio de La Moneda. Chile, 1973.

O ataque ao complexo militar e financeiro dos Estados Unidos em 11 de Setembro de 2001 marcou profundamente o imaginário político-cultural do início do século XXI. Representado como potência hegemônica incontestável, cujo poder econômico respondia por 30% do PIB mundial há época, os EUA viam-se naquele fatídico dia sob ataque direto pela primeira vez desde o fim da 2° guerra mundial: os antigos aliados de ocasião supostamente se voltavam contra as entranhas do império do norte. Até aquele evento dramático, superior aos efeitos especiais que retratavam o fim dos tempos no cinema, o pós-modernismo e sua ideologia econômica, o neoliberalismo,[1] balizavam o assim chamado fim da história, supostamente sacramentado pela dissolução e colapso do socialismo real soviético, que, como uma avalanche, parecia soterrar definitivamente as estratégias de luta e resistência de povos e nações contrários ao etnocentrismo compulsório da chamada civilização ocidental.

Era um mundo sem rivais sob a tutela de uma única superpotência. Após a derrota acachapante na guerra contra os revolucionários forjados na luta anticolonial liderada por Ho Chi Minh, cuja pertinácia foi capaz de suportar uma quantidade superior ao dobro de explosivos lançados pelos aliados durante a 2° guerra mundial, a astúcia e sagacidade de Robert MacNamara, Secretário de Defesa norte americano e posterior dirigente do Banco Mundial,  inverteu a estratégia de dominação militar direta, substituindo-a pela administração da pobreza[2] como meio de controlar os efeitos colaterais da superexploração capitalista, representados pelas sublevações populares que varriam o neocolonialismo do mapa asiático e africano. O Consenso de Washington apenas escondeu os dentes do monstro cioso de optar pela velha estratégia belicista, que, entretanto, nunca foi completamente descartada ou abandonada.

Uma coluna de fumaça emerge após a colisão de dois aviões comerciais, Boeings 767, contra as torres gêmeas do World Trade Center em Nova York. 11 de setembro de 2001. Foto: Michael Foran. Fonte: Wikipedia Commons.

Assim, o ataque às torres gêmeas do World Trade Center (WTC), e ao Pentágono, foi o estopim para os EUA descarregarem todo ódio e ressentimento acumulados por mais de 40 anos desde a televisionada fuga vergonhosa de Saigon.  Sob o efeito catatônico de aviões transformados em misseis lançados contra prédios colossais que em chamas se esfarelaram em questão de minutos, a imediata resposta militar aos ataques suicidas se converteu numa justificativa doutrinária: a estratégia de segurança nacional, tornada pública em 20 de setembro de 2002.[3] A partir de então os EUA teriam a legitimação para reprimir com força e extrema violência o que não havia acontecido com o fito exclusivo de proscrever o futuro. Interessava sobretudo impedir obstinadamente o devir histórico. Com o apoio dos principais especialistas apocalípticos de Hollywood, a nação do destino manifesto estava decididamente engajada em garantir que a partir daquele instante a “fantasia” não se tornasse realidade outra vez. O mundo entrava definitivamente na era da virtualização do real; era na qual o 11 de setembro foi a face mais tocante e paradigmática.[4]

A história événementielle pode muitas vezes representar tão somente fatos de superfície com pouca ou nenhuma importância aos desdobramentos vindouros, tal como a oscilação dos preços de determinadas mercadorias ou as crônicas ordinárias do dia a dia. Entretanto, ao historiador interessa fundamentalmente separar dos fatos cotidianos, volúveis e efêmeros,o acontecimento diretamente imbricado com o movimento aparentemente inalterável do tempo longo.[5] Outrossim, os tempos históricos seguem seus caminhos mais ou menos entrelaçados sem, entretanto, determinarem-se. Nesse aparente equilíbrio paradoxal entre a mudança e inalterabilidade vivem homens e mulheres de ação em uma peleja imemorial na tentativa de determinar o dia de amanhã. Assim, o equívoco da estratégia norte americana foi justamente acreditar que ela estava efetivamente assentada na luta contra ditadores árabes e suas armas de destruição em massa, mesmo que estas nunca fossem encontradas. Tratava-se, entretanto, de um sonho travestido de realidade tal como descreveu Descartes em suas meditações. Não sabiam ou simplesmente ignoravam acreditar que estavam lutando verdadeiramente contra as estruturas da história para a qual os homens não passam de uma diminuta estrela diante da escuridão implacável do universo e suas ondas gravitacionais que a toda luz arrebata.

Desde aquela tarde aparentemente calma, o sonho das treze colônias, que almejavam construir um mundo livre da perseguição religiosa e do anacronismo político do antigo regime, simultaneamente motor e freio da modernidade, de repente, transformou-se em um grande pesadelo, arrebatado pela tormenta colonial há séculos subjugada. Assentada na opressão e extermínio de incontáveis povos e culturas, a felicidade mostrava-se como fenômeno indissociável da dor e do sofrimento daqueles que foram reduzidos à condição de coisa não humana.  Não foi a primeira vez que o mundo oprimido se rebelou e tampouco a primeira vez que o imperialismo mostrou a inépcia de se impor pela força, mesmo valendo-se dos modernos misseis tomahawk ao custo de 1 milhão de dólares a unidade. Houve também quem ousou romper as correntes do colonialismo pela via pacífica; mas em função dessa virtuosa audácia e atrevimento provaria o sabor amargo da brutalidade liberal.   

Tal qual o par de prédios quase idênticos do World Trade Center, o 11 de setembro, como um espelho que reflete a imagem invertida, reproduziu o ocaso trágico da via chilena para o socialismo.

Orquestrado pelos órgãos de inteligência dos EUA, na madrugada de 11 de setembro de 1973 iniciava-se o golpe militar mais violento e sanguinário da América Latina, o qual culminaria no massacre do Estádio Chile e no bombardeio ao Palacio de la Moneda. Acostumados à segurança de fortaleza inexpugnável, incrustrada entre o Atlântico e o Pacífico, todas as experiências políticas sul-americanas que se opuseram ao interesse da doutrina monroe foram duramente reprimidas sem que existisse qualquer possibilidade de revide. Salvador Allende, líder incondicional da Unidade Popular e defensor intransigente da via não armada, mesmo diante de duas tentativas de golpe militar, morreu resistindo a ele com arma em punho para defender sua revolução pacífica.

Marcha a favor de Salvador Allende em setembro de 1964. Foto: James N. Wallace. Fonte: Wikipedia Commons.

A experiência da Unidade Popular foi pedra de toque que transpôs a barreira da cordilheira, repetindo o feito de San Martín na luta pela independência. Da homônima Unidade Popular uruguaia ao eurocomunismo italiano e francês; da ilha cubana de Fidel Castro à China de Mao Tsé-tung: todos observavam atentos aos triunfos e limites da revolução com empanadas e vinho tinto.[6] Em apenas um ano a renda dos trabalhadores aumentou 30%. A reforma agrária, planejada para se realizar em 6 anos, completou-se em apenas 18 meses. Ainda em 1972, sob a pressão da “revolução que vinha de baixo”, mais de três mil fazendas foram expropriadas. Perante a mais rápida reforma agrária da história, o líder comunista chinês Chou En-lai comentaria que talvez Allende estivesse indo rápido demais.[7] Para aqueles que vivem da terra, no entanto, o tempo sempre será urgente. Tratava-se fundamentalmente de uma reparação histórica não só ao campesinato, mas também de reconhecer a legitimidade à terra dos povos tradicionais, especificamente dos mapuche, que por séculos impuseram sucessivas derrotas ao avanço colonial espanhol. A revolução ainda estava engatinhando, mas o salário médio do camponês aumentará 118%. Às vésperas do golpe, mais de 500 empresas e fábricas estavam sob o controle e gestão democrática de seus trabalhadores, sendo a fábrica de tecidos Yarur exemplo paradigmático. Ainda no ano de 1972, 90% dos bancos estavam nacionalizados e se encontravam, enfim, a serviço da incontestável classe produtora. As minas de cobre, responsáveis por 80% das exportações chilenas, que estavam sob controle quase total do capital estadunidense antes do governo da Unidade Popular, estariam completamente estatizadas em 1971. Nesse ano o produto interno bruto chileno aumentara 8,6% ante uma transferência efetiva de 10% renda nacional do capital para o trabalho. Porém, as classes populares estavam cientes que ao invés de esperar pela “revolução que vinha de cima”, valia mais a pena lutar para concretizá-la, pois o desespero começaria a rondar tanto a burguesia quanto uma fração significativa da classe média reacionária.

Salvador Allende

O impacto cultural não foi desprezível. Longe de se confundir com mero proselitismo político, a organização dos Comitês Culturais nas poblaciones, ocupações do movimento por moradia responsáveis por abrigar 1/6 da população chilena nas áreas limítrofes de Santiago, por exemplo, foi a base material da qual Victor Jara extraiu seus versos e melodias que cantavam a luta dos pobladores por uma casa. Mario Pedrosa, talvez o mais importante crítico de arte brasileiro, viu e vivenciou a experiência revolucionaria na cultura chilena. Exilado naquele país a convite de Allende, Pedrosa descortinou o processo social subjacente à produção artística popular. Acusando a falsidade da noção de autoria como ato individualizado do processo criativo, localizado historicamente na gênese da arte burguesa renascentista dos séculos XIV-XVI,[8] as oficinas de artesanato permitiriam o florescimento de uma arte livre da alienação e, por conseguinte, emancipada da necessidade do mercado voltado ao turismo. Em outras palavras, o esforço coletivo, ocultado na história do renascimento, o único capaz de criar uma arte autêntica, espontânea e desinteressada, manifestar-se-ia no retorno do artista ao ofício de artesão. Assim, não só se alcançaria a ontologia criativa como também se asseguraria uma genuína arte popular, libertada do apelo estético burguês. Mário Pedrosa observou esse fenômeno se rotinizar tanto na produção de artefatos de uso cotidiano quanto no Museu de Arte Moderna e Experimental, futuro Museu da Solidariedade, que ele ajudou a criar. [9]

A contrarrevolução, porém, vinha sendo preparada antes mesmo da posse de Allende. Tendo vencido por estreita margem de 30 mil votos o candidato Jorge Alessandri, Richard Nixon, alertado por Henry Kissinger e Richard Helms, Secretário de Segurança Nacional e Diretor da CIA, respectivamente, tentou subornar membros da bancada do Partido Democrata Cristão para barrarem a posse do primeiro presidente marxista eleito democraticamente. Malfadada essa alternativa, organizou-se o sequestro do general René Schneider, comandante do exército, com o objetivo de incriminar a Unidade Popular e assim quebrar a hierarquia de linha prussiana vigente na estrutura militar. Novamente o tiro saiu pela culatra: a ação desastrada dirigida pelo general Camilo Valenzuela e pelo ex-general neofacista Roberto Viaux levou ao assassinato de Schneider, que resistiu à tentativa de sequestro. Desmascarado o plano para desmoralização da UP, assumiria o comando das forças armadas o general legalista Carlos Prats, fiel a Allende. Assim, só restava aos EUA implementar o embargo silencioso e impelir a economia chilena à completa asfixia. Duas greves patronais relacionadas ao setor de transporte e outra tentativa de golpe desbaratada por Prats, o tancazo, impôs aos membros da UP o difícil dilema estratégico: persistir na aposta conciliatório com a Democracia Cristã, que negava a Allende poderes para desmantelar a persistente sanha golpista, ou optar pela via armada defendia pelo MIR (Movimiento da Izquierda Revolucionaria). Prevaleceu a primeira opção, mas não sem haver racha entre comunistas e socialistas. A via chilena estava definitivamente interditada.

O embargo silencioso mostraria seus efeitos após as eleições municipais de 1971: a inflação que fora de apenas 27% nos primeiros anos alcançaria três dígitos em 1973. Além disso, no cenário internacional, a queda de 25% no preço do cobre diminuiria ainda mais o acesso ao crédito internacional hegemonizado pelas companhias norte americanas. O cenário estava preparado para a marcha das panelas vazias, que pavimentou o caminho de ruptura institucional. A Unidade Popular ainda foi capaz de responder com uma marcha de meio milhão de pessoas em 4 setembro de 1973, dias antes do golpe. A Batalha do Chile já havia começado.      

Prats, desmoralizado no seio militar, renunciou ao comando do exército e indicou como sucessor o general Augusto Pinochet, futuro dirigente da Operação Condor. Apenas 18 dias mais tarde Allende seria derrubado em um violento golpe militar que ceifou a vida tanto de grandes personalidades quanto de trabalhadores urbanos e rurais que tentaram resistir. Victor Jara, que teve as duas mãos decepadas publicamente no Estádio Chile, e o prêmio nobel de literatura Pablo Neruda foram duas vítimas notáveis. Os generais Prats e Alberto Bachelet, mas também Democratas Cristãos que apoiaram o golpe, como o ex-presidente Eduardo Frei, não tiveram suas vidas poupadas. Porém, as maiores vítimas foram os jovens das plobaciones e das áreas rurais cujos corpos mutilados enfatizou a ira dos militares pela revolução socialista. A batalha épica de la Legua, uma población de baixa renda e reduto de aguerridos comunistas, foi apenas uma de tantas outras batalhas travadas entre revolucionários e golpistas.

Aqueles que não morreram provaram o sadismo das câmaras secretas de tortura da Vila Grimaldi ou dos campos de concentração da ilha Dawson, na Antártida, ou nos desertos de Pisagua ou Chacabuco. Estupros coletivos, choques elétricos e outras lacerações compunham os métodos apreendidos e aprimorados diretamente de militares brasileiros orquestradores da Operação Bandeirantes.

Apesar da imprecisão dos dados, as comissões da verdade apontam pelo menos 3.178 mortes e mais de 28 mil torturados oficiais.[10] Sabe-se ainda que os mais de 100 mil presos no transcurso da ditadura sofreram algum tipo de tortura. O choque neoliberal não só reprivatizou as mais de 500 empresas geridas por trabalhadores no governo Allende como operou a redução dos salários em 50% mediante autorização para duplicação dos preços. O programa dos Chicago Boys desregulou as relações de trabalho ao destruir a estrutura sindical; privatizou o sistema de saúde e previdenciário, incluindo a seguridade social, e implementou uma crescente privatização do sistema educacional. Anos mais tarde, porém, na década de 1980, a forças populares se reorganizaram e impuseram sucessivas derrotas ao sanguinário ditador. Se a bazuca chinesa não tivesse falhado, o atentado organizado em 1987 pela Frente Patriótico Manuel Rodrigues (FPMR), organização adepta à luta armada ligada ao Partido Comunista Chileno, teria mandado o carro presidencial para os ares, e com ele seu general. Diante do atentado fracassado, os chilenos retornariam à democracia no ano seguinte pelas mãos do próprio ditador: em um plebiscito no qual havia um único candidato, Pinochet, 54 % dos chilenos escolheram colocar fim à ditadura que durou exatos 15 anos. Nos anos subsequentes a Concertación por la Democracia, uma frente ampla que reunia Democratas Cristãos e remanescentes da Unidade Popular, entretanto, foi incapaz de contestar o consenso neoliberal e restaurar as conquistas sociais anteriores à ditadura. A conciliação de classes mostrava-se uma grande aliada do Consenso de Washington na administração da pobreza.  

De todo modo, nem de longe a batalha foi perdida. Novas janelas históricas se abrem diante da luta que o povo chileno trava desde outubro de 2019 por uma assembleia constituinte que, enfim, substituirá a atual constituição imposta em 1980. Quem sabe uma nova pedra de toque cruze outra vez a espinha dorsal do continente americano e assim permita que um novo horizonte se descortine frente ao neoliberalismo que arrasa as parcas conquistas sociais da combalida América Latina. Afinal, como proferiu Allende em seu último discurso: “[…] Os processos sociais não são contidos nem com o crime nem com a força. A história nos mostra e são os povos que a fazem […]. Muito antes do que se espera, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores!”[11]

Notas

[1] ANDERSON, Perry. As origens da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

[2] CLARK, William. Robert McNamara at the World Bank. In:. Foreign Affairs, vol. 60, n. 1, 1981.

[3] ZIZEK, Slavoj. Bem vindo ao deserto do real. São Paulo: Boitempo, 2003.

[4] Idem, ibdem.

[5] BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais: a longa duração. In:. Revista de História. Vol. XXX, n. 62, 1965. 

[6] WINN, Peter. A revolução chilena. São Paulo: Editora UNESP, 2010. p. 19

[7] Idem, Ibdem. p.100

[8] PEDROSA, Mario. Arte culta e arte popular. In:. ARANTES, Otília (org). Políticas das artes. São Paulo: EDUSP, 1995.

[9] PALUMBO, Carmem. A opção terceiro-mundista de Mário Pedrosa. In:. Arteriais: revista do ppgartes. n.6, 2018. p.133-134

[10] WINN, Peter. op. cit., p.183

[11] Idem, Ibdem. p.178

Para citar este artigo

SOUSA, Rafael Vitor Barbosa. A longa duração do 11 de setembro. Faísca | Centelha e História [Internet]. Disponível em: https://faisca.org/2020/09/a-longa-duracao-do-11-de-setembro/ [Acessado em 21 de outubro de 2021].
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