Dietmar Rabich / Wikimedia Commons / “Dülmen, Heilig-Kreuz-Kirche, Uhrwerk -- 2019 -- 3056” / CC BY-SA 4.0

Em “A Máquina Parou”, conto publicado pela primeira vez em 1909, E. M. Forster imagina uma sociedade global distópica que vive no subterrâneo da Terra, e funciona em simbiose com uma série de mecanismos e engrenagens conhecidos como “A Máquina”. Apresentado em três capítulos, “A nave aérea”, “O dispositivo reparador” e “Os desabrigados”, a história se desenvolve a partir da relação entre a mãe Vashti e seu filho Kuno.

Forster descreve uma superfície terrestre onde só samambaias e formas vidas inferiores conseguem sobreviver e, abaixo da crosta, uma sociedade globalizada que condena a experiência direta encapsulada em pequenos habitats individuais. Vashti, em certo momento, relata que o mundo se transformou em lama e poeira, e que o ar acima mataria qualquer um. Simplesmente avistar a superfície é o suficiente para perturbar a personagem, mesmo que seja somente pela claraboia de uma máquina voadora, a janela de um avião.

Vashti é a personagem que melhor resume as ideias dessa sociedade distópica. Ela é palestrante, assim como todos, e se angustia facilmente por qualquer coisa que saia do controle, se recusa a experimentar o mundo pelas suas próprias sensações e projeta sobre a Máquina uma fé religiosa. Ela vive em permanente repouso, em uma roupa higiênica, ministrando e assistindo palestras de 10 minutos, em seu aposento de um cômodo, sua cela, o quarto-casa.

Existe uma passagem particularmente interessante sobre a Terra arrasada. Enquanto contos futuristas mais modernos se conectam com a ameaça nuclear, ou o excesso de poluição, ao final do primeiro capítulo o autor descreve que as florestas haviam sido destruídas durante a “era literária”, para a produção de polpa para papel-jornal, uma metáfora para hiperprodução de informação que o tempo histórico do autor só começava a vislumbrar.

O cataclisma terrestre dá ao conto a figura de um circuito fechado e entrópico. A hiperprodução de informação, os avanços da ciência e a mediação da experiência são a causa e a consequência da esterilização da superfície da Terra e, não menos, da existência d’A Máquina. Assim, a máquina final, que liberta o homem do próprio homem, o condena.

Nesse futuro, todos tem a disposição aparelhos de comunicação similares a tablets, são servidos pelo cinematofoto, algo como uma smart tv, e são pontos de uma interconexão global dos quartos-casas, a internet. Outras descrições lembram comicamente o futuro imaginado pelo passado, como o desenho animado dos Jetsons, feito nos anos de 1980, uma vida entre carros voadores, esteiras rolantes e braços mecânicos que tiram seu casaco no fim do dia.

Mas há também morbidez em sua descrição desse futuro. Supridos em todas as suas necessidades pela Máquina, e em eterno repouso na poltrona central do quarto-casa, o corpo humano deteriorou em suas funções motoras e tornamo-nos “uma massa de carne enfaixada”. Vashti oscila, enjoa, tem tonturas a cada movimento seu feito sem auxílio d’A Máquina, enquanto Kuno entra em uma rotina de exercícios físicos com o travesseiro para desenvolver um corpo que possa caminhar cada vez mais longe.

A disposição física, inclusive, é um tabu social. Chama atenção de Vashti a força física que aparenta Kuno, e seus pelos que crescem em um sinal de “selvageria”. Esse ato que se choca diretamente com a cultura e os costumes d’A Máquina leva Vashti a uma digressão sobre o sacrifício de bebês com predisposição a ter uma constituição física atlética.

O sacrifício de nascituros inadequados, para poupar o indivíduo não ajustado em relação ao meio, e não menos para poupar o meio do indivíduo, que para um Inglês ilustrado, no início do século XX, seria um traço de sociedades humanas primitivas, reaparece no futuro de Forster em uma lógica cartesiana se chocaria diretamente com o humanismo do autor. Na distopia d’A Máquina, só na uniformidade é possível dividir tarefas e utilizar recursos com maior eficiência.

Mas o conto não é só sobre futuros distópicos, tecnológicos, cibercultura (se é que ainda se pode usar o termo) ou coisa que o valha. Como descreve Teixeira Coelho, no prefácio, Forster era orientado “por quatro vetores por ele mesmo enunciados: curiosidade, uma mente livre e aberta, bom gosto e crença na raça humana.”

Kuno será o porta voz de Forster para, ao final, reafirmar sua crença na humanidade e na superação d’A Máquina. Durante o conto, o personagem vai demonstrar que sua personalidade tem como características predominantes as mesmas que o autor. As primeiras duas em especial são responsáveis por conduzir o herói para sua jornada, que conhecemos como espectadores através de Vashti.

É pela curiosidade e pela mente livre e aberta que Kuno irá recuperar seu senso de medida do mundo, ancorá-lo no homem, e declarar o homem novamente como a medida de todas as coisas. Também são essas características que impulsionam Kuno pelos túneis, para saber o que existe para além d’A Máquina, recuperar a superfície, o quente e o frio, os odores, a dor, o dia e a noite. Experiências que ele terá prazer em dividir com sua mãe, que em um primeiro momento desmerece e condena, mas que não interrompe sua narrativa, se mantém atenta em um misto de horror e curiosidade.

Aqui cabe um segundo destaque. Mesmo a jornada travada por Kuno, recuperando a sua humanidade e se libertando d’A Máquina, é trazida de forma mediada, ela é experimentada indiretamente pelo relato que o herói faz para sua mãe, quase como uma palestra. Uma ironia, certamente, apresentar a experiência de Kuno dessa forma, quando a mediação que a Máquina faz da vida é o motivo de desumanização da sociedade.

Na parte final do conto, sua crença na humanidade aparece com intensidade e religiosidade. O colapso d’A Máquina é apresentado de forma muito semelhante a textos bíblicos que falam da segunda vinda de Cristo, e do fim do mundo. Como em Tessalonicenses 5:3 onde se lê “Pois, que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição” ou Mateus 24:42 que diz, “Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor.”, há sinais claros do fim d’A Máquina, mas só Kuno percebe. O autor afirma “Quanto a Vashti, sua vida continuou em paz até o desastre final” e, mais adiante, “Os problemas começaram sem alarde, muito antes que tomasse consciência deles”. Vashti só percebe a falha total quando cessa qualquer tipo de comunicação, o que a desperta de sua principal característica condicionada, de palestrante.

Saindo de sua habitação, Vashti constata o caos generalizado, que se segue, em tom apocalíptico, com a destruição do mundo. Máquinas voadoras caindo dos céus, fogo, violência, e a Máquina se partindo. No meio desse cenário os dois personagens se encontram pela última vez e Kuno, ferido de morte, revela que existem indivíduos na superfície da Terra que podem florescer enquanto sociedade com o fim d’A Máquina. Indivíduos que, para Kuno, não cometeriam o mesmo erro e não se afastariam da sua humanidade. Será?


O conto foi publicado no Brasil, com tradução de Teixeira Coelho, pela Editora Iluminuras, em 2018, em parceria com o Observatório Itaú Cultural, pela coleção “Os Livros do Observatório”, e está gratuito na Amazon, no formato e-book para o kindle.

Possui graduação em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2007), especialização em Gestão Pública pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (2016), especialização em Gestión y Políticas Culturales pela Universitat de Girona (2019). Faz parte do Núcleo de Curadoria do Museu da Cidade de São Paulo.