Manifestantes de 25 de abril de 1983 na cidade do Porto, aniversário da Revolução dos Cravos.
25 de Abril de 1983, cidade do Porto, Portugal. Aniversário da Revolução dos Cravos. Fotografia de Henrique José Teixeira Matos. Wikicommons.

Desde 2015 as instituições brasileiras se encontram em estado de completa degradação e autodestruição; estado que historicamente sempre caracterizou o surgimento de governos autoritários. Ontem assistimos aos partidos do judiciário e do “exército” entrarem em choque. A esquerda deverá estar atenta e vigilante para construir uma agenda independente dos grupos políticos que traíram o pacto social de 1988. Assim, o campo popular deve ter identidade e estratégia próprias, mesmo que em algumas batalhas próximas lute ao lado dos algozes do passado recente.

Ninguém faz a história senão por meio das condições e possibilidades oriundas do passado. O Brasil é um país carente de sucessos revolucionários, como prova a história da República marcada por golpes e contragolpes sucessivos, que, sem exceção, sempre marginalizou a esmagadora maioria da população brasileira. Mesmo o processo de reabertura política representou uma derrota das forças progressistas: os militares que mataram e torturaram milhares de militantes por 21 anos tutelaram todo o processo de “redemocratização” e hoje estão novamente no poder.

Há intérpretes do Brasil que consideram que nossas raízes ibéricas nos legaram uma profunda tradição autoritária e antidemocrática. Porém, os camaradas portugueses também foram capazes de fazer uma revolução com cravos e fuzis em 25 de abril de 1974. Há exatos 46 anos, caía a ditadura fascista imposta por Salazar em 1933, uma das maiores da história. Precisamos ter sempre em mente que a maior força da esquerda é a sua dimensão popular, que representa a verdadeira democracia. Ela deverá determinar a dimensão da resistência. Ela deverá estar preparada para ocupar as ruas quando a pandemia arrefecer, pois estaremos diante de uma crise social sem precedentes. Mas também poderá ser o momento para confraternizarmos e chorarmos com amigos, amigas, parentes, ex-amores, com companheiros e companheiras de luta. Os cravos poderão, quem sabe, substituir os fuzis mais uma vez.