No dia 19 de novembro, às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra, o Brasil assistiu, estarrecido, na TV às cenas do espancamento seguido do assassinato de João Alberto Silveira Freitas, um cidadão negro, morto por seguranças da rede de supermercados Carrefour, na cidade de Porto Alegre. 

Esse não foi o primeiro ato de violência contra pessoas negras ocorrido nas dependências da rede francesa de supermercados. O Carrefour coleciona ações dessa natureza: violência, espancamento, suspeita de estupro (leia aqui) e, agora, a morte filmada e transmitida para todos os lares do Brasil. Ao que parece essa foi a gota d’agua que faltava para transbordar o copo. Nos dias seguintes, protestos pipocaram nas principais cidades brasileiras. Uns pacíficos, outros com excesso de energia frente à ignomínia perpetrada contra uma pessoa. 

Chama a atenção que, após a morte, a divulgação das imagens e a autuação dos seguranças, a rede Carrefour demorou a se pronunciar sobre o caso. Depois, tentou desresponsabilizar a empresa de segurança pelo crime, ao afirmar que a segurança é feita por empresas terceirizadas. Terceiro, não prestou nenhum auxílio à família de João Alberto. Preferiu emitir uma nota (como estamos cansados dessas notas) em que informa que as lojas abriram mais tarde porque os funcionários receberiam treinamento para melhor lidar com o assunto. Ora, ora, não se enfrenta o racismo com algumas horas de treinamento. O enfrentamento a essa chaga se faz com afinco e determinação, em um processo que exige muito dos envolvidos, quando movidos e guiados pela sinceridade e compromisso. 

A rede de supermercado Carrefour, numa tentativa de oferecer uma resposta à sociedade após o assassinato brutal do cidadão negro João Alberto Silveira Freitas nas dependências de uma das suas lojas, em Porto Alegre, formou um “Comitê de diversidade” para pensar formas de reparação e responsabilização sobre um dos assuntos mais comentados pela imprensa brasileira na semana passada e em diferentes partes do mundo. A repercussão do caso foi de tal ordem que a Alta Comissaria da ONU para Direitos Humanos, a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, se pronunciou sobre o covarde assassinato (pronunciamento de Michelle Bachelet). 

Somente no dia 3 de dezembro, o vice-presidente da rede de supermercados no Brasil pediu desculpas pelo brutal assassinato, em uma sessão virtual da comissão da Câmara de Deputados que acompanha o caso. O gesto é o primeiro passo, mas ainda é pouquíssimo. O Carrefour deve ser acionado para que indenize financeiramente a família de João Alberto. O ideal seria que a empresa francesa, movida por um sentimento de vergonha, tomasse a iniciativa de indenizar financeiramente a família de Beto Freitas, em uma das suas lojas. É preciso que as empresas assumam o risco ao contratar brutamontes para fazer a “segurança” das suas lojas. Considerando que o morto tinha 40 anos, portanto presumidamente viveria até os 80 anos de idade, a rede francesa de supermercados deve indenizar a família do homem assassinado em valores equivalentes à renda mensal familiar por 40 anos. Esses valores são um grão de areia em relação ao faturamento da rede no Brasil. Nem um centavo a menos, talvez a mais. 

A indenização é um aspecto importante para a família. Mas, se não vier acompanhada de outras medidas que contribuam para mudar o modus operandi da empresa, não teremos nenhuma garantia de que outras mortes ocorreram. Certamente que, agora, ao invés de espancar na frente das câmeras, os seguranças serão treinados para levar os “suspeitos” para alguma sala previamente montada para esse fim.  

Espera-se que, o tal “comitê de diversidade” anunciado pela vice-presidente da empresa aproveite o evento trágico do assassinato vil e covarde para propor ao Carrefour um grande programa de Ações Afirmativas. Faz-se necessário aproveitar a tragédia causada pela morte de João Alberto para que se promovam verdadeiras mudanças na empresa. Quem sabe até seguir o exemplo do Magazine Luiza (veja aqui), abrindo um amplo programa de trainee para negros na empresa, para cargos de gerência e alta gestão. Mas isso só não basta. É preciso pensar uma estratégia duradoura e de longa duração para impulsionar uma transformação em uma área em que há tanta resistência. Somente com a incorporação de expressivos contingentes negros nos cargos de gerência e na alta gestão das empresas é que poderemos falar em um início do combate efetivo ao racismo, à discriminação e ao preconceito racial. 

O programa de trainee do Magazine Luiza enfrentou a resistência e as tentativas de desestabilização dos recalcitrantes, que querem a permanência das coisas imóveis. Em artigo recente, o professor Jorge Alexandre Neves, da UFMG, demonstrou a importância de iniciativas como a do Magazine Luiza (leia aqui). Para saber como esses programas devem funcionar, conhecer seus limites, recomendo a leitura do livro “Executivos Negros”, do antropólogo Pedro Jaime (saiba mais aqui). 

Esse tipo de inciativa tem por finalidade possibilitar o debate e as ações corretivas, não podendo ficar limitada a aspectos da segurança, como o treinamento destes e dos funcionários do estabelecimento. O horizonte deve ser ampliado. Os objetivos devem ser audaciosos. As metas, arrojadas. Para tanto, sozinho, o Carrefour não avançará um milímetro para modificar a sua forma de agir. Sabe-se de muitos casos de muita boa vontade no início das ações, mas que se perdem rapidamente. Há, no Brasil, ONGs e consultorias que desenvolvem trabalhos destinados à inclusão de pessoas negras no mercado de trabalho. Assim, o movimento para ser verdadeiro e efetivo deve elaborar um plano de ação, contratar as pessoas certas, capacitadas, com experiência na área para implementar as ações que conduzam às transformações efetivas. Do contrário, serão tão somente medidas cosméticas, mera perfumaria para disfarçar a podridão do acúmulo de corpos negros mortos pelo racismo. 

Se o Carrefour deseja melhorar a imagem pública e reconquistar clientes, terá que trilhar uma longa caminhada. A transformação não se dará da noite para o dia. Enquanto isso, que os protestos continuem. O mundo precisa saber que não toleramos mais tanta violência racial. Impérios podem introduzir inovações para se adaptar aos ventos da mudança ou tentar resistir e correr o risco de desmoronar como um castelo de cartas sob uma lufada. Como já disse Victor Hugo, “nada é mais poderoso do que uma ideia que chegou no tempo certo”. 

Vidas negras importam vivas! Essa é a ideia. Este é o seu tempo. Que os protestos continuem. O povo negro não aguenta mais esperar.