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As eleições para a Prefeitura da Cidade de São Paulo em 2020, uma leitura do contexto. Parte 2 – selfie-politics e pós-verdade.

Honoré Daumier - Masques. 1831.

As tecnologias modificaram bastante as eleições. No período recente, o uso massificado da Internet e a popularização dos telefones com acesso a ela potencializaram algumas mudanças. No texto vou trabalhar com duas transformações importantes para contextualizar o processo eleitoral, que me parecem ter a mesma gênese: a individualização excessiva da vida, impulsionada por essas tecnologias. Elas impactam a forma de entender, operar e participar da vida política.

A primeira transformação se dá no comportamento das pessoas em relação ao mundo e à política, pautadas pelo seu “eu”. Ainda que a história política brasileira seja marcada pela deliberada confusão entre o público e o privado, pelo patrimonialismo[1], os limites entre o “eu” e o “outro” neste desenho eram definidos, com a apropriação indevida do mundo comum por aqueles que detinham privilégios, como na expressão popular “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Dele se depreende que a lei, as regras, só servem aos outros; que os amigos estão acima dela. Dentro deste quadro, as corrupções seriam o resultado mais simples. Mas, neste caso, os envolvidos, tanto quem corrompe quanto quem é corrompido, sabem que estão tomando do outro para si, e assim o fazem por acreditarem que podem agir desta forma, desprezando ou prejudicando outrem.

O que se opera, no que chamo de sefie-polítics, ultrapassa essa “confusão” patrimonialista e suas consequentes corrupções, pois forma uma leitura própria do mundo pautada pelo “eu”, e que anula o “outro”. O uso do estrangeirismo faz-se necessário para a compreensão do fenômeno: poderia ser uma política “consigo”, ou uma autopolítica, ainda que os termos sejam logicamente antagônicos, mas o uso da tecnologia abreviou essa relação ao dotar os telefones celulares de uma câmera voltada ao autor, que se observa nas fotos, o selfie, que vai além do self, por referir-se a ele de forma carinhosa. É uma supervalorização do amor-próprio.

Sim, o texto trata da análise do período eleitoral, mas não é possível pensar a política contemporânea sem esse elemento comportamental que é o amor-próprio exponenciado. Amar-se não é, e nem deve ser, um problema, inclusive a busca por isso existe em religiões, filosofias e na psicanálise, mas a forma como isso vem se desenhando tem ajudado na erosão de um elemento fundamental da política: o mundo comum, partilhado[2]. Onde antes havia o registro da imagem, agora há o registro (e a publicização!) da autoimagem. O fundamental não é a paisagem, a obra de arte, a festa, mas o “eu” na paisagem, junto à obra de arte, aproveitando (ou não) a festa. Na política essa transformação afetou o comportamento tanto dos representados quanto dos representantes.

No campo dos representantes a autoimagem sempre foi importante, motivo pelo qual sempre houve palanques, fotos ou até mesmo quadros, a depender do período histórico, a retratar líderes em momentos de glória. Mas a tecnologia fez dessa exposição uma necessidade ininterrupta, em que os encontros, reuniões, atos, são (quase!) todos registrados. Quase todos, pois muitas negociações permanecem dentro dos gabinetes, privadas, ou disponíveis a um público muito restrito. Há seletividade na divulgação desses eventos, marcada pelo acesso a determinadas redes, programas, aplicativos, ambientes, em ações que poderiam ser consideradas marketing, o que faz mais sentido com partidos marcas (como apresentado no texto anterior). Além disso, trata de recortes do cotidiano real para um público que se vê como supervisor das ações da novela pública, que acabam servindo como controle social parcial, já que formado por pessoas selecionadas.

Esta confusão entre público e privado não é a mesma que foi antes apresentada, e que continua acontecendo. Ela é nova. E publiciza-se uma novela, um acompanhamento da vida privada que não traz transparência, o que poderia ser um bom uso da tecnologia, mas, ao contrário, serve apenas à autovalorização do indivíduo que representa a população ou, ao menos, seu eleitorado. Isso não invalida que ações públicas sejam registradas e acompanhadas, mas elas entram em uma narrativa individual de apresentação ao público. E muito do que deveria ser público, por envolver o mundo partilhado, como os embates políticos, as negociações, questões substantivas sobre regramentos, financiamentos, posicionamentos, permanecem ocultos. São publicizados quando há o interesse nisso, por vazamentos à mídia, por exemplo, o que favorece o discurso narrativo da novela.

Em relação aos representados, a selfie-polítics se expressa, principalmente, em dois comportamentos. O primeiro é a construção de espaços individuais de vocalização de ideias. No sentido estrito isso deveria ser bom, pois possibilita a muitos o acesso à reverberação de suas ideias, algo costumeiramente vendido como democratização da participação na vida pública. A cultura empreendedora individualista valoriza isso. Uma pessoa tem seus seguidores, pessoas que não necessariamente conhecem ou debatem as postagens, mas que replicam e vocalizam seus influenciadores. E muitas dessas redes, por serem empresas comerciais, vão dar destaque àquilo que as interessa comercialmente, restringindo ou sobre valorizando determinados conteúdos e acessos.

O segundo é a facilidade no relacionamento virtual com qualquer pessoa. O universo virtual permite atalhos aos interlocutores. Isso também poderia ser positivo, garantindo maior horizontalidade, o que não ocorre, pois os ambientes são restritos a comunidades específicas e não há previsão de debate/ discussão. O “outro”, nestes ambientes, responde a um “eu”, sem a necessidade de constituição de um espaço comum entre eles. As relações são, neste contexto, tagueadas, ou seja, matematizadas e colocadas em universos selecionados a partir de seus resultados. A sefie-polítics, então, favorece a soma de indivíduos e não à construção de espaços comuns. Ela forma nichos ao invés de criar interação em um mundo partilhado. Ela expressa ideias, mas não as põe em debate necessariamente.

Essa individualização é extrema e autorreferenciada, colocando o outro, quando se valida a sua existência, em relação a si. O que importa é o que o indivíduo considera correto e como os outros se posicionam em relação a isso, sem troca, sem espaço comum. Pode-se curtir ou não curtir, seguir ou cancelar. Isso força um binarismo sem meios termos, sem negociação, sem debate, sem política.

O ápice dessa super individualização autorreferenciada é a pós-verdade, conceito cada vez mais corrente nas leituras da contemporaneidade. Como as ideias não precisam ser apresentadas em um espaço comum de debate, são compartilhadas com nichos, não há necessária validação externa e/ou científica. As opiniões ganham força pela adesão ou rejeição, não por apresentarem dados ou empiria. Desta forma o senso comum disputa com a ciência a validação da realidade, desqualificando-a. Constrói-se um relativismo exacerbado que, no limite, valida qualquer coisa que o indivíduo acredite. Talvez pudéssemos conceituar como selfie-reality: a realidade que o indivíduo quer acreditar como real. E se ela vale individualmente, sem a necessidade de outro, não se partilha um mundo comum e não é possível a política.

A insistência em um mundo comum, partilhado, é porque a política acontece entre. Depende da existência de mais de uma pessoa e que elas tornem público, que vocalizem, seus julgamentos. Se há a anulação do outro, pela valorização da autorreferência e da pós verdade, não há entre. O mundo comum perde sentido. O Estado, se desejado, serve apenas à legitimação de ações individuais, necessariamente anômicas. Perde seu sentido.

Essa dimensão do contexto é importante, pois a disputa eleitoral que teremos ocorrerá dentro destes marcos e, como consequência, não tem disputa de projetos estruturantes. E não apenas no sentido amplo, visando a construção ou consolidação de um mundo comum, de uma cidadania plena, com a troca constante de ideias, mas também no sentido da apresentação de programas organizados para a cidade, com a melhoria da vida da população local. Tal qual nos reality shows, em que os paredões e vitórias ocorrem pela maioria de votos, candidatos tentarão conquistar a maioria de seguidores, de pessoas a concordar com sua narrativa da novela política.

Nesta perspectiva não interessa a política educacional, habitacional, ambiental, a redução da desigualdade social ou qualquer outra. Importante exaltar as qualidades individuais (de bom gestor) e desqualificar os oponentes. E neste parágrafo não é preciso imaginar o “limite”. Ele foi dado quando um inexpressivo deputado foi alçado à condição de líder pelas elites políticas e grandes veículos da mídia tendo como mote acabar com os “outros” e com “tudo que está aí”. Não houve debate, pois não havia ideia ou programa. Houve um grande apelo popular de indivíduos que queriam ser livres enquanto tal, sem a necessidade do outro, sem mundo partilhado, sem coisa pública.

Se os partidos são marcas a ser vendidas aos consumidores, se a prefeitura é palanque para outros cargos, se o importante é ser querido por uma maioria, as eleições servem apenas como legitimação do desmonte da cidadania. E a única disputa que de fato poderia ocorrer, pela existência da política, não cabe nesta disputa por cargos. Assim pulverizam-se as candidaturas, tanto à direita quanto à esquerda, como teremos oportunidade de discutir nas próximas semanas, nenhuma comprometida de fato com a cidade.


[1] São muitas as referências, mas vale destacar o clássico Coronelismo, Enxada e o Voto, do Vitor Nuno Leal, e os estudos contemporâneos da Maria Teresa Kerbauy, notadamente A morte dos coronéis, em que revela que a industrialização e a urbanização não acabaram com o fenômeno do coronelismo.

[2] O mundo comum, ou partilhado, é aqui empregado a partir do proposto nos textos de Hannah Arendt e Jacques Rancière, também referências para a política.

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