O Esporte, 14/10/1945. Arquivo do Corinthians.

O futebol é um esporte que motiva fortes paixões. Move multidões mundialmente ao longo de mais de um século e cristaliza inúmeras contradições, que, de certo modo, permite desvendar determinados movimentos sociais ao longo da história. Trazido para o Brasil por Charles Miller em 1894 com o intuito de entreter e divertir a classe dominante, a modalidade esportiva então amadora e de perfil elitista rapidamente cedeu diante da potencial e rentável profissionalização e, por conseguinte, transformou-se em uma atividade popular em todos os aspectos. Homens provenientes dos estratos subalternizados paulatinamente passaram a ocupar as quatro linhas do campo e a inundar suas ainda precárias arquibancadas de madeira, criando algo inteiramente singular não só no Brasil como na maior parte da américa latina. Os estádios em poucos anos se transformaram no que se poderia qualificar de coliseu moderno. Pão e circo diriam os homens históricos de Nietzsche, que são incapazes de acreditar na organização e sensibilidade popular.

Até meados da década de 1960 a plasticidade de um futebol lento e cadenciado não raras vezes dava lugar à disputa mais empedernida na qual muitas pernas foram literalmente quebradas em virtude da gana de vencer a partida. Os apelidos de então, como de um certo Cezar Maluco, permite ao observador cauteloso e perspicaz entender a marcha das guerras travadas nos rústicos gramados de outrora em direção ao processo contemporâneo de reeuropeização e reelitização consagrado no período pós-2014: o método obstinado da classe dirigente em disciplinar e controlar o espectro genuinamente popular. Não se trata aqui de uma desqualificada apologia à violência. Mas de se compreender o artifício de submeter e reprimir a vontade do outro; de determinar quem lhe é diferente.

Um esporte feito por e para a classe operária. Assim foi o apogeu de sua história. Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, talvez seja o grande paradigma dentre os inúmeros e anônimos exemplos dessa era. Operário de fábrica na cidade fluminense de Pau Grande desde os 14 anos de idade,[1] teve seu emprego garantido, apesar da suposta displicência durante as extenuantes jornadas de trabalho, por ser o artilheiro e o mais habilidoso jogador do time Sport Clube Pau Grande, subordinado à indústria têxtil América Fabril. Essa era a escola dos grandes jogadores e torcedores: a fábrica. A formação fazia-se no chão de onde se extraía o sustento cotidiano numa espécie de ressignificação simbólica entre agricultura e cultura. Era da classe trabalhadora que os clubes profissionais pinçavam os principais jogadores para o delírio dela mesma, então singelamente incapaz de acreditar na autêntica arte que ela fora capaz de criar.

Muita lenda cerca a origem do maior clássico brasileiro e talvez do maior clássico do futebol mundial. Em 1910 nascia o Sport Club Corinthians Paulista, um modesto time formado por operários do bairro do Bom Retiro em meio aos elitizados clubes da Liga Paulista de Futebol, fundada em 1901. Cinco anos mais tarde, desvinculado tanto da Liga Paulista quanto da recém-criada Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), e, portanto, sem disputar o prestigioso campeonato paulista, o time alvinegro cedeu 5 jogadores para a primeira partida do então Palestra Itália. Assim, no domingo de 24 de janeiro de 1915, na cidade de Sorocaba, Américo, Fúlvio, Police, Bianco e Amílcar entraram em campo na estreia do time da colônia italiana de São Paulo contra o Savoia de Votorantim. Coube ao corinthiano Bianco marcar o primeiro gol da história palmeirense e sacramentar a primeira vitória do time palestrino por 2 a 0.[2] Apesar da rivalidade construída em campo ano após ano, a história parece ter reservado mais proximidade entre as duas equipes do que comumente a imprensa burguesa divulga, como esta que diz respeito à origem da equipe do Palmeiras.  Essa semelhança obviamente não se refere as cores das duas equipes, mas antes ao apelo de ambas: ser popular.

Deste modo, o ano de 1945 foi um marco tanto para a história política mundial quanto para a história operária do futebol no Brasil. O fim da 2° Guerra Mundial trouxe enorme prestígio para a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), principal responsável pelo triunfo das forças aliadas sobre a Wehrmacht Nazista. Criado em 1922 para logo entrar na ilegalidade, a história de perseguição ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) é marca indelével do pavor que o estrato superior proveniente da casa grande sempre teve em relação à autodeterminação do povo. Contrariando os reais interesses dos homens bons, a grande reputação alcançada pelo ideal comunista, após o final do conflito mundial, permitiu ao PCB voltar à legalidade por um brevíssimo período e participar da disputa eleitoral imediatamente posterior ao termino da ditadura do estado novo.

Nesse sentido, com o fito de angariar fundos para as eleições de 1945, o Movimento Unificado dos Trabalhadores (MUT), braço sindical do PCB, costurou com as diretorias dos dois mais populares clubes de futebol de São Paulo a realização de um amistoso que aconteceria no estádio do Pacaembu. Assim, na tarde fria do dia 13 de Outubro de 1945, data na qual se iniciou o julgamento no Tribunal Internacional de Nuremberg, Palmeiras e Corinthians entraram em campo para a realização da partida que ficou conhecida como “o jogo vermelho”.[3] Dois times; dois parques. Todavia, de uma mesma classe: operária. Antes da aguardada partida, o que reforça a tradição fabril do futebol, os torcedores puderam assistir ao jogo entre as equipes do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Fiação e Tecelagem  contra o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil.[4] O jogo principal terminaria com um placar digno dos grandes clássicos: vitória de virada do Palmeiras por 3 a 1. Os gols foram anotados por Tarzan, pelo lado alvinegro, e por Waldemar Fiúme, Lima e o uruguaio Villadoniga pelo o lado palestrino.

O saldo político não foi de modo algum desprezível. O PCB se tornou o quarto partido do país. Elegeu 17 deputados e um senador, Luiz Carlos Prestes, o cavaleiro da esperança. Alcançou maioria na Câmara de Veadores do Distrito Federal. Iedo Fiúza, candidato completamente desconhecido até então, alcançaria a significativa votação de 10% no escrutínio presidencial.[5] Entretanto, se o célebre jogo entre as equipes do Parque São Jorge e do Parque Antártica revela o breve período de triunfo das forças progressistas no pós-guerra, que em um curto intervalo de tempo reuniu comunistas e democratas, por outro lado, a frente fascista e racista nunca foi efetivamente desbaratada, sob grave responsabilidade das direções de esquerda, incapazes de organizar uma frente comum. Em 1947 o PCB retornará à ilegalidade por decisão do STF baseada em obscura denúncia de deputados do PTB, principal partido popular! No mesmo dia o Ministério do Trabalho interviu em 14 sindicatos e fechou a central sindical controlada pelos comunistas.[6] 

Do outro lado, articulados no Partido da Representação Popular (PRP), Plínio Salgado, principal liderança fascista, fundador PRP, partido que aglutinou os integralistas no brevíssimo período democrático que se seguiu entre 1945 e 1964, na condição de candidato em 1955, alcançou expressiva votação de 8% na eleição presidencial que sucedeu a malfadada tentativa de golpe que levou ao suicídio de Vargas e a quase não posse de Juscelino Kubitschek. O fantasma fascista estava muito vivo. Posteriormente, os reacionários do PRP constituiriam o núcleo duro da ARENA, entre 1965 e 1979, durante a ditadura civil-militar, e daria origem durante a abertura lenta, gradual e segura, ao Partido Democrático Social (PDS), subsequentemente transformado em Partido Progressista (PP).[7] Um importante pensador disse certa vez que ninguém faz a história senão por meio das condições herdadas pelo passado. Ironicamente, parece que a direita sempre teve mais teoria do que a esquerda: o PP serviu de legenda parlamentar ao atual presidente Jair Bolsonaro, herdeiro dos porões do DOPS e da Operação Bandeirantes.   

A história legaria outra vez, porém, agora mais às torcidas das equipes dos dois parques do que às inertes direções políticas de esquerda, a tarefa de orientar para o único caminho possível diante das várias estratégias políticas que constituem o campo popular: a unidade de classe. Coube inicialmente aos torcedores corinthianos da Gaviões da Fiel, talvez pela sensibilidade ainda latente da democracia corinthiana, iniciar o movimento de luta nas ruas contra os neonazistas organizados em torno do bolsonarismo. Agora são tantos outros alviverdes, tricolores e alvinegros que sinalizam às direções de esquerda que não cabe mais conciliação dentro do pacto constitucional rompido há poucos anos. A luta mal começou e os homens de bem do andar de cima já tentam desorganizar o singular movimento formado nas bases da sociedade.  Alguns falam em frente ampla sem representantes da esquerda. Outros confrontam o corinthiano Alexandre de Moraes com o suposto palmeirense Jair Bolsonaro. Não. As torcidas organizadas cientes de si e para si disseram não. O Partido do Judiciário e a classe política de direita (tradicional e fascista) sempre estiveram do mesmo lado. Eles partilham do ideal neoliberal: ideologia responsável pelo golpe de 2016, que nunca hesitou justificar a violência policial e militar para impor a miséria, a fome, as valas comuns e as câmaras frigoríficas para negros, indígenas e homens e mulheres da classe trabalhadora.

Os donos do poder sempre temeram a força e a criatividade de homens e mulheres humildes porque estes são capazes de façanhas extraordinárias. Eles não suportam a ideia de que Josés, Marias, Antônios e Conselheiros não se submetam às ordens da civilizada Withworth 32, a matadeira. Os Manés só serão toleráveis enquanto se mantiverem disciplinados em jogar dentro dos finos estádios para deleite da elite e da classe média abastada. Por isso, nesse momento se apegam desesperadamente às instituições que ironicamente eles destruíram. Bola rolando. Segue o jogo. Diferentemente dos verdes gramados das atuais e modernas arenas, os campos de hoje estão nas ruas onde os jovens de periferia aprenderam a jogar descalços. E nesse confronto, como deveria ser em qualquer jogo de futebol, não será o juiz que determinará o resultado final da partida em função da disputa mais ou menos acirrada, pois a história do futebol é a história da luta de classes.


[1] BARTHOLO, Thiago Lisboa; SOARES, Antonio Jorge Gonçalves. Mané Garrincha como síntese da identidade do futebol brasileiro. In:. Movimento. Vol15. N°1. 2009. p. 174

[2] DUARTE, Orlando. Palmeiras: o alviverde imponente. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008. p. 31 e 32

[3] REBELO, Aldo. Palmeiras x Corinthians 1945: o jogo vermelho. São Paulo: Editora UNESP, 2010. p.43

[4] Idem, Ibdem. p.30

[5] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP. 2010, p.398

[6] FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP. 2010, p.402-420

[7] CALIL, Gilberto. Partido da Representação Popular: estrutura interna e inserção eleitoral (1945-1965). In:.Revista Brasileira de Ciência Política. N° 5. Brasília. 2011. p.351