Xepa da Charanga do França, na Santa Cecília. São Paulo, 2020. © Felipe Garofalo.

Neste ano, o carnaval de rua de São Paulo atingiu números recordes e reivindicou para si o título do maior, senão um dos maiores, carnavais de rua do Brasil. Mas nem sempre foi assim, no início desse século, São Paulo contabilizava os recursos que deixavam de circular na economia da cidade e os milhões de veículos que iriam deixar a capital durante o feriado. Essa história começou a mudar entre 2012 e 2013, quando o Manifesto Carnavalista, um grupo organizado de carnavalescos, encontrou escuta na Secretaria de Cultura da cidade com Juca Ferreira então Secretário, e Guilherme Varella seu chefe de Gabinete, na gestão de Fernando Haddad como prefeito da capital.

De lá pra cá, os números cresceram vertiginosamente e São Paulo, antes cemitério do samba, virou destino turístico para o carnaval. No seu primeiro ano, em 2013, a garantia do direito à folia alcançou cerca de 50 blocos de carnaval e algumas centenas de foliões. Agora, em 2020, com Alê Youssef, fundador do Baixo Augusta, no comando da Secretaria Municipal de Cultura, a cidade anunciou um crescimento de 38,5% em relação ao carnaval de 2019, com 678 desfiles autorizados pela Prefeitura, entre eles os mega blocos, distribuídos em 468 pontos da cidade e que de acordo com projeções dos blocos atraíram 15 milhões de pessoas, 1 milhão a mais que 2019. E, mesmo ocorrendo pela primeira vez nas 32 prefeituras regionais da capital paulista, 56% dos cortejos se concentraram em apenas três delas, Sé, Lapa e Pinheiros.

No entanto, para além do seu aspecto popular e libertário, o carnaval de rua de São Paulo teve uma grande acentuação da sua face comercial, e uma consolidação da sua camada de engajamento político-ativista. Essas duas dinâmicas, experimentadas simultaneamente, pela própria natureza do encontro, amplificaram as contradições latentes da festa. A precarização do trabalhador e a cooptação pela marca comercial, se misturam com a ampliação dos costumes e o avanço da diversidade sobre território conservador.

A Ambev se tornou patrocinadora oficial do evento, pagando 21,9 milhões de reais para garantir o monopólio na comercialização de cerveja e publicidade das marcas da empresa. Skol foi a grande marca do carnaval de rua da cidade. Entre os foliões todos os vendedores ambulantes credenciados pela Prefeitura só podiam comercializar a marca e ostentavam imensos guarda-chuvas com o logotipo da cerveja.

Foram abertas 12 mil vagas para vendedores ambulantes, com inscrições feitas pela internet, duas mil a mais que 2019. No dia 12 de fevereiro a Prefeitura anunciou 700 novas vagas para vendedores ambulantes, que se esgotaram em poucos minutos, segundo a Ambev. Além disso, a empresa reajustou o preço da cerveja em 20% em relação ao carnaval de 2019, acima da inflação oficial de 4,31%, quando também foi patrocinadora oficial e monopolizou as vendas. O reajuste, combinado com o aumento de 38,5% do carnaval de rua na capital projetavam um lucro expressivo.

Mas com a previsão de mau tempo para o feriado do carnaval, a Ambev investiu em uma ação espetaculosa: bombardear nuvens de chuva no interior de São Paulo, com gotículas de água potável, para precipitarem antes de chegar à capital, garantindo tempo estável para permanência dos foliões nas ruas. A empresa ainda justificou que faria chover “no lugar certo” indicando o sistema cantareira como alvo final do bombardeio.

Na sua camada político-ativista, os blocos entoavam músicas, marchinhas e palavras de ordem conclamando uma resistência pela festa e pela ocupação do espaço público, contra o obscurantismo e a beligerância da extrema-direita, que alcançou o poder federal nas eleições de 2018. Outra pauta política do carnaval foram as campanhas contra o assédio. Corpos políticos no carnaval de rua de São Paulo exibiam tatuagens temporárias com o slogan da campanha “Não é não”.

Do Manifesto Carnavalesco em 2012 e 2013, quando a cidade ainda contabilizava prejuízo econômicos durante o feriado de carnaval, o carnaval de rua de São Paulo de fato cresceu até se tornar em 2020 um negócio de R$ 2,6 bilhões de reais e uma festa com 15 milhões de foliões. 

Concentrado principalmente em bairros ricos da capital, uma massa relativamente uniforme de foliões foi servida por um exército de 12.700 vendedores ambulantes, ultra precarizados, para o lucro da maior cervejaria do mundo. A distinção entre foliões e trabalhadores, durante os cortejos, também se revelava uma distinção entre classes sociais, cor e raça, não de forma absoluta, mas — gritantemente — majoritária.

Então por que pulamos? Quais sujeitos podem ser políticos? Quais corpos são livres para dizer “não é não”? Qual a resistência que está sendo celebrada, e para quem ela serve?

Não era este, o fim desejado pelo Manifesto Carnavalista. Havia, no desejo inicial do grupo, uma intenção de ampliar o sentido da rua e reivindicar o espaço para um uso festivo, com manifestações populares carnavalescas e o alargamento das convenções sociais. A politização das marchinhas e dos blocos, as expressões mais livres do corpo e da sexualidade, seriam um processo decorrente do ethos carnavalesco. No entanto, sobre a festa se impôs uma máquina comercial gigantesca e insaciável, que tem cooptado e homogeneizado as manifestações culturais do carnaval de rua em São Paulo.

Mas se o direito a folia pode, e deve, ser uma política da vida, uma política pública contrária a necropolítica que se instalou no governo federal — e só se amplia desde o golpe de 2016 —, essa discussão não pode se esvaziar depois das festividades, e seu aspecto comercial precisa ser debatido pela sociedade civil organizada. A mesma que, em 2013, capitulou com o poder municipal para dar vazão a festa represada e, principalmente, aquela que hoje organiza blocos e se beneficia da sua expansão.